Parte II, Lira II Marília de Dirceu · Capítulo 35 de 96
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Parte II, Lira II

Esprema a vil calúnia muito embora

Entre as mãos denegridas e insolentes

Os venenos das plantas

E das bravas serpentes.

Chovam raios e raios; no meu rosto

Não hás de ver, Marília, o medo escrito:

O medo perturbador,

Que infunde o vil delito.

Podem muito, conheço, podem muito

As Fúrias infernais que Pluto move;

Mas pode mais que todas

Um dedo só de Jove.

Este Deus converteu em flor mimosa,

A quem seu nome dera, a Narciso;

Fez de muitos os Astros,

Qu'inda no Céu diviso.

Ele pode livrar-me das injúrias

Do néscio, do atrevido ingrato povo;

Em nova flor mudar-me,

Mudar-me em Astro novo.

Porém se os justos Céus, por fins ocultos,

Em tão tirano mal me não socorrem,

Verás então que os sábios

Bem como vivem, morrem.

Eu tenho um coração maior que o mundo!

Tu, formosa Marília, bem o sabes:

Um coração... e basta,

Onde tu mesma cabes.

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