Parte II, Lira XXXII Marília de Dirceu · Capítulo 65 de 96
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Parte II, Lira XXXII

Se o vasto mar se encapela,

E na rocha em flor rebenta,

Grossa nau, que não tem leme,

Em vão sustentar-se intenta;

Até que naufraga, e corre

À discrição da tormenta.

Quem não tem uma beleza,

Em que ponha o seu cuidado;

Se o Céu se cobre de nuvens,

E se assopra o vento irado,

Não tem forças que resistam

Ao impulso do seu fado.

Nesta sombria masmorra,

Aonde, Marília, vivo,

Encosto na mão o rosto,

Fico às vezes pensativo.

Ah! que imagens tão funestas

Me finge o pesar ativo.

Parece que vejo a honra,

Marília, toda enlutada;

A face de um pai rugosa,

Num mar de pranto banhada;

Os amigos macilentos,

E a família consternada.

Quero voltar os meus olhos

Para outro diverso lado;

Vejo numa grande praça

Um teatro levantado;

Vejo as cruzes, vejo os potros,

Vejo o alfanje afiado.

Um frio suor me cobre,

Laxam-se os membros, suspiro;

Busco alívio às minhas ânsias,

Não o descubro, deliro.

Já , meu Bem, já me parece

Que nas mãos da morte expiro.

Vem-me então ao pensamento

A tua testa nevada,

Os teus meigos, vivos olhos,

A tua face rosada,

Os teus dentes cristalinos,

A tua boca engraçada.

Qual, Marília, a estrela d'alva,

Que a negra noite afugenta;

Qual o Sol, que a névoa espalha

Apenas a terra aquenta;

Ou qual Íris, que o Céu limpa,

Quando se vê na tormenta:

Assim, Marília, desterro

Triste ilusão, e demência;

Faz de novo o seu ofício

A razão, e a prudência;

E firmo esperanças doces

Sobre a cândida inocência.

Restauro as forças perdidas,

Sobe a viva cor ao rosto,

Gira o sangue pela veia,

E bate o pulso composto:

Vê, Marília, o quanto pode

Contra meus males teu rosto.

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