Parte III, Lira V Marília de Dirceu · Capítulo 76 de 96
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Parte III, Lira V

Eu não sou, minha Nise, pegureiro,

que viva de guardar alheio gado;

nem sou pastor grosseiro,

dos frios gelos e do sol queimado,

que veste as pardas lãs do seu cordeiro.

Graças, ó Nise bela,

graças à minha estrela!

A Cresso não igualo no tesouro;

mas deu-me a sorte com que honrado viva.

Não cinjo coroa d'ouro;

mas povos mando, e na testa altiva

verdeja a coroa do sagrado louro.

Graças, ó Nise bela,

graças à minha estrela!

Maldito seja aquele, que só trata

de contar, escondido, a vil riqueza,

que, cego, se arrebata

em buscar nos avós a vã nobreza,

com que aos mais homens, seus iguais, abata.

Graças, ó Nise bela,

graças à minha estrela!

As fortunas, que em torno de mim vejo,

por falsos bens, que enganam, não reputo;

mas antes mais desejo:

não para me voltar soberbo em bruto,

por ver-me grande, quando a mão te beijo.

Graças, ó Nise bela,

graças à minha estrela!

Pela ninfa, que jaz vertida em louro,

o grande deus Apolo não delira?

Jove, mudado em touro

e já mudado em velha não suspira?

seguir aos deuses nunca foi desdouro.

Graças, ó Nise bela,

graças à minha estrela!

Pertendam Anibais honrar a História,

e cinjam com a mão, de sangue cheia,

os louros da vitória;

eu revolvo os teus dons na minha ideia:

só dons que vêm do céu são minha glória.

Graças, ó Nise bela,

graças à minha estrela!

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