Parte II, Lira XXXI Marília de Dirceu · Capítulo 64 de 96
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Parte II, Lira XXXI

Roubou-me, ó minha Amada, a sorte ímpia

Quanto de meu gozava

Num só funesto dia;

Honras de maioral, manada grossa,

Fértil, extensa herdade,

Bem reparada choça.

Meteu-se nesta infame sepultura,

Que é sepulcro sem honras,

Breve masmorra escura.

Aqui, ó minha amada, nem consigo

Ver outro desgraçado

Sentir também comigo:

Mas esta companhia não mereço.

Os Deuses me dão outra,

Ainda de mais apreço.

Não é, não, ilusão o que te digo;

Tu mesma me acompanhas;

Peno, mas é contigo.

Não vejo as tuas faces graciosas,

Os teus soltos cabelos,

As tuas mãos mimosas.

Se eu as visse, infeliz me não dissera,

Bem que subira ao Potro

Bem que na Cruz pendera.

Não ouço as tuas vozes magoadas,

Com ardentes suspiros

Às vezes mal formadas.

Mas vejo, ó cara, as tuas letras belas,

Uma por uma beijo,

E choro então sobre elas.

Tu me dizes que siga o meu destino;

Que o teu amor na ausência

Será leal e fino.

De novo a carta ao coração aperto,

De novo a molha o pranto,

Que de ternura verto.

Ah! Leve muito embora o duro Fado

A tudo quanto tenho

Com meu suor ganhado.

Eu juro que do roubo nem me queixe,

Contanto, ó minha cara,

Que este só bem me deixe.

Que males voluntários não sentiram,

Os que te amam somente

Porque menos te ouviram?

Dê pois aos mais seus bens a Deusa cega,

Que eu tenho aquela glória

Que a mil felizes nega.

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