Parte I, Lira XVIII Marília de Dirceu · Capítulo 18 de 96
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Parte I, Lira XVIII

Não vês aquele velho respeitável

Que à muleta encostado

Apenas mal se move e mal se arrasta?

Oh! Quanto estrago não lhe fez o tempo!

O tempo arrebatado

Que o mesmo bronze gasta.

Enrugaram-se as faces e perderam

Seus olhos a viveza;

Voltou-se o seu cabelo em branca neve:

Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo,

Não tem uma beleza

Das belezas que teve.

Assim também serei, minha Marília,

Daqui a poucos anos;

Que o ímpio tempo para todos corre.

Os dentes cairão, e os meus cabelos,

Ah! Sentirei os danos,

Que evita só quem morre.

Mas sempre passarei uma velhice

Muito menos penosa.

Não trarei a muleta carregada:

Descansarei o já vergado corpo

Na tua mão piedosa,

Na tua mão nevada.

Nas frias tardes em que negra nuvem

Os chuveiros não lance,

Irei contigo ao prado florescente:

Aqui me buscarás um sítio ameno,

Onde os membros descanse

E o brando sol me aquente.

Apenas me sentar, então movendo

Os olhos por aquela

Vistosa parte, que ficar fronteira;

Apontando direi: "Ali falamos,

Ali, ó minha bela,

Te vi a vez primeira."

Verterão os meus olhos duas fontes,

Nascidas de alegria:

Farão teus olhos ternos outro tanto:

Então darei, Marília, frios beijos

Na mão formosa e pia

Que me limpar o pranto.

Assim irá, Marília, docemente

Meu corpo suportando

Do tempo desumano a dura guerra.

Contente morrerei, por ser Marília

Quem sentida chorando

Meus braços olhos cerra.

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