Parte I, Lira XV Marília de Dirceu · Capítulo 15 de 96
Obra Menu

Parte I, Lira XV

A minha bela Marília

Tem de seu um bom tesouro;

Não é, doce Alceu, formado

Do buscado

Metal louro.

É feito de uns alvos dentes,

É feito de uns olhos belos,

De umas faces graciosas,

De crespos, finos cabelos;

E de outras graças maiores,

Que a natureza lhe deu:

Bens que valem sobre a Terra

E que têm valor no Céu.

Eu posso romper os montes;

Dar às correntes desvios;

Pôr cercados espaçosos

Nos caudosos

Turvos rios;

Posso emendar a ventura

Ganhando astuto a riqueza;

Mas, ah, caro Alceu! Quem pode

Ganhar uma só beleza

Das belezas que Marília

No seu tesouro meteu?

Bens que valem sobre a Terra

E que têm valor no Céu.

Da sorte que vive o rico

Entre o fausto alegremente,

Vive o guardador do gado

Apoucado,

Mas contente.

Beije pois torpe avarento

As arcas de barras cheias:

Eu não beijo os vis tesouros,

Beijo as douradas cadeias,

Beijo as setas, beijo as armas

Com que o cego Amor venceu:

Bens que valem sobre a Terra

E que têm valor no Céu.

Ama Apolo, e o fero Marte;

Ama, Alceu, o mesmo Jove:

Não é, não, a vã riqueza,

Sim beleza,

Quem os move.

Posto ao lado de Marília

Mais que mortal me contemplo:

Deixo os bens que aos homens cegam,

Sigo dos Deuses o exemplo:

Amo virtudes, e dotes;

Amo enfim, prezado Alceu,

Bens que valem sobre a Terra

E que têm valor no Céu.

1/1
Menu

Fazer anotação