Parte II, Lira XXXIII Marília de Dirceu · Capítulo 66 de 96
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Parte II, Lira XXXIII

Morri, ó minha Bela:

Não foi a Parca ímpia,

Que na tremenda roca,

Sem Ter descanso, fia;

Não foi, digo, não foi a Morte feia

Quem o ferro moveu, e abriu no peito

A palpitante veia.

Eu, Marília, respiro;

Mas o mal, que suporto,

É tão tirano, e forte,

Que já me dou por morto:

A insolente calúnia depravada

Ergueu-se contra mim, vibrou da língua

A venenosa espada.

Inda, ó Bela, não vejo

Cadafalso enlutado,

Nem de torpe verdugo

Braço de ferro armado;

Mas vivo neste mundo, ó sorte ímpia,

E dele só me mostra a estreita fresta

O quando é noite, ou dia.

Olhos baços, e sumidos,

Macilento, e descarnado,

Barba crescida, e hirsuta,

Cabelo desgrenhado;

Ah! que imagem tão digna de piedade!

Mas é, minha Marília, como vive

Um réu de Majestade.

Venha o processo, venha;

Na inocência me fundo:

Mas não morreram outros,

Que davam honra ao mundo!

O tormento, minha alma, não recuses:

A quem sábio cumpriu as leis sagradas

Servem de sólio as cruzes.

Tu, Marília, se ouvires,

Que ante o teu rosto aflito

O meu nome se ultraja

C'o suposto delito,

Dize severa assim em meu abono:

Não toma as armas contra um Cetro justo

Alma digna de um trono.

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