Parte II, Lira IV Marília de Dirceu · Capítulo 37 de 96
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Parte II, Lira IV

Já, já me vai, Marília, branquejando

Louro cabelo que circula a testa;

Este mesmo, que alveja, vai caindo

E pouco já me resta.

As faces vão perdendo as vivas cores,

E vão-se sobre os ossos enrugando.

Vai fugindo a viveza dos meus olhos;

Tudo se vai mudando.

Se quero levantar-me, as costas vergam;

As forças dos meus membros já se gastam.

Vou a dar pela casa uns curtos passos:

Pesam-me os pés, e arrastam.

Se algum dia me vires destas sorte,

Vê que assim me não pôs a mão dos anos:

Os trabalhos, Marília, os sentimentos,

Fazem os mesmos danos.

Mal te vir, me dará em poucos dias

A minha mocidade o doce gosto;

Verás burnir-se a pele, o corpo encher-se,

Voltar a cor ao rosto.

No calmoso Verão as plantas secam;

Na Primavera, que os mortais encanta,

Apenas cai do Céu o fresco orvalho,

Verdeja logo a planta.

A doença deforma a quem padece;

Mas logo que a doença faz seu termo,

Torna, Marília, a ser quem era dantes,

O definhado enfermo.

Supõe-me qual doente, ou mal a planta,

No meio da desgraça, que me altera;

Eu também te suponho qual saúde,

Ou qual a Primavera.

Se dão esses teus meigos, vivos olhos

Aos mesmos Astros luz, e vida às flores,

Que efeitos não farão, em quem por eles

Sempre morreu de amores?

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