Parte I, Lira XXII Marília de Dirceu · Capítulo 22 de 96
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Parte I, Lira XXII

Muito embora, Marília, muito embora

Outra beleza que não seja a tua

Com a vermelha roda, a seis puxada,

Faça tremer a rua;

As paredes da sala aonde habita

Adorne a seda, e o tremó dourado;

Pendam largas cortinas, penda o lustre

Do teto apainelado;

Tu não habitarás palácios grandes,

Nem andarás nos coches voadores;

Porém terás um Vate que te preze,

Que cante os teus louvores.

O tempo não respeita a formosura,

E da pálida morte a mão tirana

Arrasa os edifícios dos Augustos

E arrasa a vil choupana.

Que belezas, Marília, floresceram

De quem nem sequer temos a memória!

Só podem conservar um nome eterno

Os versos ou a história.

Se não houvesse Tasso, nem Petrarca,

Por mais que qualquer delas fosse linda,

Já não sabia o mundo, se existiram

Nem Laura, nem Clorinda.

É melhor, minha Bela, ser lembrada

Por quantos hão de vir sábios humanos,

Que ter urcos, ter coches e tesouros

Que morrem com os anos.

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