Parte II, Lira IX Marília de Dirceu · Capítulo 42 de 96
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Parte II, Lira IX

A estas horas

Eu procurava

Os meus Amores;

Tinham-me inveja

Os mais Pastores.

A porta abria,

Inda esfregando

Os olhos belos,

Sem flor, nem fita,

Nos seus cabelos.

Ah! que assim mesmo

Sem compostura,

É mais formosa,

Que a estrela d'alva,

Que a fresca rosa.

Mal eu a via,

Um ar mais leve,

(Que doce efeito!)

Já respirava

Meu terno peito.

Do cerco apenas

Soltava o gado,

Eu lhe amimava

Aquela ovelha

Que mais amava.

Dava-lhe sempre

No rio, e fonte,

No prado, e selva,

Água mais clara,

Mais branda relva.

No colo a punha;

Então brincando

A mim a unia;

Mil coisas ternas

Aqui dizia.

Marília vendo,

Que eu só com ela

É que falava,

Ria-se a furto,

E disfarçava.

Desta maneira

Nos castos peitos,

De dia em dia

A nossa chama

Mais se acendia.

Ah! quantas vezes,

No chão sentado,

Eu lhes lavrava

As finas rocas,

Em que fiava!

Da mesma sorte

Que à sua amada,

Que está no ninho,

Fronteiro canta

O passarinho;

Na quente sesta,

Dela defronte,

Eu me entretinha

Movendo o ferro

Da sanfoninha.

Ela por dar-me

De ouvir o gosto,

Mais se chegava;

Então vaidoso

Assim cantava:

Não há Pastora,

Que chegar possa

À minha Bela,

Nem quem me iguale

Também na estrela;

Se amor concede

Que eu me recline

No branco peito,

Eu não invejo

De Jove o feito;

Ornam seu peito

As sãs virtudes,

Que nos namoram;

No seu semblante

As Graças moram.

Assim vivia...

Hoje em suspiros

O canto mudo;

Assim, Marília,

Se acaba tudo.

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