Parte II, Lira XX Marília de Dirceu · Capítulo 53 de 96
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Parte II, Lira XX

Se me viras com teus olhos

Nesta masmorra metido,

De mil ideias funestas,

E cuidados combatido,

Qual seria, ó minha Bela,

Qual seria o teu pesar?

À força da dor cedera,

E nem estaria vivo,

Se o menino Deus vendado,

Extremoso, e compassivo,

Com o nome de Marília

Não me viesse animar.

Deixo a cama ao romper d'alva;

O meio-dia tem dado,

E o cabelo ainda flutua

Pelas costas desgrenhado.

Não tenho valor, não tenho,

Nem par de mim cuidar.

Diz-me Cupido: E Marília

Não estima este cabelo?

Se o deixas perder de todo,

Não se há de enfadar ao vê-lo?

Suspiro, pego no pente,

Vou logo o cabelo atar.

Vem um tabuleiro entrando

De vários manjares cheio;

Põe-se na mesa a toalha,

E eu pensativo passeio:

De todo o comer esfria,

Sem nele poder tocar.

Eu entendo que a matar-te,

Diz amor, te tens proposto;

Fazes bem: terá Marília

Desgosto sobre desgosto.

Qual enfermo c'o remédio,

Me aflijo, mas vou jantar.

Chegam as horas, Marília,

Em que o Sol já se tem posto;

Vem-me à memória que nelas

Vi à janela teu rosto:

Reclino na mão a face,

E entro de novo a chorar.

Diz-me Cupido: Já basta,

Já basta, Dirceu, de pranto;

Em obséquio de Marília

Vai tecer teu doce canto.

Pendem as fontes dos olhos,

Mas em sempre vou cantar.

Vem o Forçado acender-me

A velha, suja candeia;

Fica, Marília, a masmorra

Inda mais triste, e mais feia.

Nem mais canto, nem mais posso

Uma só palavra dar.

Diz-me Cupido: São horas

De escrever-se o que está feito.

Do azeite, e da fumaça

Uma nova tinta ajeito;

Tomo o pau, que pena finge,

Vou as Liras copiar.

Sem que chegue o leve sono,

Canta o Galo a vez terceira;

Eu digo a Amor, que fico

Sem deitar-me a noite inteira;

Faço mimos, e promessas

Para ele me acompanhar.

Ele diz, que em dormir cuide,

Que hei de ver Marília em sonho,

Não respondo uma palavra,

A dura cama componho,

Apago a triste candeia,

E vou-me logo deitar.

Como pode a tais cuidados

Resistir, ó minha Bela,

Quem não tem de Amor a graça;

Se eu, que vivo à sombra dela,

Inda vivo desta sorte,

Sempre triste a suspirar?

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