Parte II, Lira XIX Marília de Dirceu · Capítulo 52 de 96
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Parte II, Lira XIX

Nesta triste masmorra,

De um semivivo corpo sepultura,

Inda, Marília, adoro

A tua formosura.

Amor na minha ideia te retrata;

Busca extremoso, que eu assim resista

À dor imensa, que me cerca, e mata.

Quando em meu mal pondero,

Então mais vivamente te diviso:

Vejo o teu rosto, e escuto

A tua voz, e riso.

Movo ligeiro para o vulto os passos;

Eu beijo a tíbia luz em vez de face;

E aperto sobre o peito em vão os braços.

Conheço a ilusão minha;

A violência da mágoa não suporto;

Foge-me a vista e caio,

Não sei se vivo ou morto.

Enternece-se Amor de estrago tanto;

Reclina-me no peito, e com mão terna

Me limpa os olhos do salgado pranto.

Depois que represento

Por largo espaço a imagem de um defunto,

Movo os membros, suspiro,

E onde estou pergunto.

Conheço então que Amor me tem consigo;

Ergo a cabeça, que inda mal sustento,

E com doente voz assim lhe digo:

Se queres ser piedoso,

Procura o sítio em que Marília mora.

Pinta-lhe o meu estrago

E vê, Amor, se chora.

Se lágrimas verter, se a dor a arrasta,

Uma delas me traze sobre as penas,

E para alívio meu só isto basta.

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