Parte II, Lira XI Marília de Dirceu · Capítulo 44 de 96
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Parte II, Lira XI

Se acaso não estou no fundo Averno,

Padece, ó minha Bela, sim, padece

O peito amante e terno

As aflições tiranas que aos precitos

Arbitra Radamanto em justa pena

Dos bárbaros delitos.

As Fúrias infernais, rangendo os dentes,

Com a mão escarnada não me aplicam

As raivosas serpentes,

Mas cercam-me outros monstros mais irados:

Mordem-se sem cessar as bravas serpes

De mil e mil cuidados.

Eu não gasto, Marília, a vida toda

Em lançar o penedo da montanha

Ou em mover a roda,

Mas tenho ainda mais cruel tormento:

Por coisas que me afligem, roda e gira

Cansado pensamento.

Com retorcidas unhas agarrado

Às tépidas entranhas não me come

Um abutre esfaimado,

Mas sinto de outro monstro a crueldade:

Devora o coração, que mal palpita,

O abutre da saudade.

Não vejo os pomos, nem as águas vejo,

Que de mim se retiram quando busco

Fartar o meu desejo;

Mas quer, Marília, o meu destino ingrato

Que lograr-se não possa, estando vendo

Nesta alma o teu retrato.

Estou no Inferno, estou, Marília bela;

E numa coisa só é mais humana

A minha dura estrela:

Uns não podem mover do Inferno os passos;

Eu pretendo voar, e voar cedo,

À glória dos teus braços.

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