Parte II, Lira XXV Marília de Dirceu · Capítulo 58 de 96
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Parte II, Lira XXV

Minha Marília,

O passarinho

A quem roubaram

Ovos e ninho

Mil vezes pousa

No seu raminho;

Piando finge

Que anda a chorar.

Mas logo voa

Pela espessura,

Nem mais procura

Este lugar.

Se acaso a vaca

Perde a vitela,

Também nos mostra

Que se desvela;

O pasto deixa,

Muge por ela,

Até na estrada

A vem buscar.

Em poucos dias,

Ao que parece,

Dela se esquece,

E vai pastar.

O voraz Tempo

Que o ferro come,

Que aos mesmos Reinos

Devora o nome,

Também, Marília,

Também consome

Dentro do peito

Qualquer pesar.

Ah! só não pode

Ao meu tormento

Por um momento

Alívio dar.

Também, ó Bela,

Não há quem viva

Instantes breves

Na chama ativa;

Derrete ao bronze;

Sendo excessiva,

Ao mesmo seixo

Faz estalar.

Mas do amianto

A febre dura

Na chama atura

Sem se queimar.

Também, Marília,

Não há quem negue,

Que bem que o fogo

Nos óleos pegue,

Que bem que em línguas,

Às nuvens chegue,

À força d'água

Se há de apagar.

Se a negra pedra

Nós acendemos,

Com água a vemos

Mais s'inflamar.

O meu discurso,

Marília, é reto:

A pena iguala

Ao meu afeto.

O amor, que nutro,

Ao teu aspecto,

E ao teu semblante,

É singular.

Ah! Nem o tempo,

Nem inda a morte

A dor tão forte

Pode acabar.

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