Parte II, Lira XXI Marília de Dirceu · Capítulo 54 de 96
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Parte II, Lira XXI

Que diversas que são, Marília, as horas,

Que passo na masmorra imunda, e feia,

Dessas horas felizes, já passadas

Na tua pátria aldeia!

Então eu me ajuntava com Glauceste;

E à sombra de alto Cedro na campina

Eu versos te compunha, e ele os compunha

À sua cara Eulina.

Cada qual o seu canto aos Astros leva;

De exceder um ao outro qualquer trata;

O eco agora diz: Marília terna;

E logo: Eulina ingrata.

Deixam os mesmos Sátiros as grutas.

Um para nós ligeiro move os passos;

Ouve-nos de mais perto, e faz flauta

C'os pés em mil pedaços.

Dirceu, clama um Pastor, ah! bem merece

Da cândida Marília a formosura.

E aonde, clama o outro, quer Eulina

Achar maior ventura?

Nenhum Pastor cuidava do rebanho,

Enquanto em nós durava esta porfia.

E ela, ó minha Amada, só findava

Depois de acabar-se o dia.

À noite te escrevia na cabana

Os versos, que de tarde havia feito;

Mal tos dava, e os lia, os guardavas

No casto e branco peito.

Beijando os dedos dessa mão formosa,

Banhados com as lágrimas do gosto,

Jurava não cantar mais outras graças,

Que as graças do teu rosto.

Ainda não quebrei o juramento,

Eu agora, Marília, não as canto;

Mas inda vale mais que os doces versos

A voz do triste pranto.

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