Parte I, Lira V Marília de Dirceu · Capítulo 5 de 96
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Parte I, Lira V

Acaso são estes

Os sítios formosos

Aonde passava

Os anos gostosos?

São estes os prados

Aonde brincava

Enquanto passava

O gordo rebanho

Que Alceu me deixou?

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Daquele penhasco

Um rio caía;

Ao som do sussurro

Que vezes dormia!

Agora não cobrem

Espumas nevadas

As pedras quebradas;

Parece que o rio

O curso voltou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Meus versos alegre

Aqui repetia:

O eco as palavras

Três vezes dizia.

Se chamo por ele,

Já não me responde;

Parece se esconde,

Cansado de dar-me

Os ais que lhe dou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Aqui um regato

Corria sereno

Por margens cobertas

De flores e feno:

À esquerda se erguia

Um bosque fechado,

E o tempo apressado,

Que nada respeita,

Já tudo mudou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Mas como discorro?

Acaso podia

Já tudo mudar-se

No espaço de um dia?

Existem as fontes,

E os freixos copados;

Dão flores os prados

E corre a cascata,

Que nunca secou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Minha alma, que tinha

Liberta a vontade,

Agora já sente

Amor e saudade.

Os sítios formosos

Que já me agradaram,

Ah! Não se mudaram;

Mudaram-se os olhos,

De triste que estou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

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