Parte II, Lira XII Marília de Dirceu · Capítulo 45 de 96
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Parte II, Lira XII

Ah, Marília, que tormento

Não tens de sentir saudosa!

Não podem ver os teus olhos

A campina deleitosa,

Nem a tua mesma aldeia,

Que tiranos não proponham

À inda inquieta ideia

Uma imagem de aflição.

Mandarás aos surdos Deuses

Novos suspiros em vão.

Quando levares, Marília,

Teu ledo rebanho ao prado,

Tu dirás: Aqui trazia

Dirceu também o seu gado.

Verás os sítios ditosos

Onde, Marília, te dava

Doces beijos amorosos

Nos dedos da branca mão.

Mandarás aos surdos Deuses

Novos suspiros em vão.

Quando à janela saíres,

Sem quereres, descuidada,

À minha pobre morada,

Tu dirás então contigo:

Ali Dirceu esperava

Para me levar consigo;

E ali sofreu a prisão.

Mandarás aos surdos Deuses

Novos suspiros em vão.

Quando vires igualmente

Do caro Glauceste a choça,

Onde alegre se juntavam

Os poucos da escolha nossa,

Pondo os olhos na varanda

Tu dirás de mágoa cheia:

Todo o congresso ali anda,

Só o meu amado não.

Mandarás aos surdos Deuses

Novos suspiros em vão.

Quando passar pela rua

O meu companheiro honrado,

Sem que me vejas com ele

Caminhar emparelhado,

Tu dirás: Não foi tirana

Somente comigo a sorte;

Também cortou desumana

A mais fiel união.

Mandarás aos surdos Deuses

Novos suspiros em vão.

Numa masmorra metido,

Eu não vejo imagens destas,

Imagens que são por certo

A quem adora funestas.

Mas se existem separadas

Dos inchados, roxos olhos,

Estão, que é mais, retratadas

No fundo do coração.

Também mando aos surdos Deuses

Tristes suspiros em vão.

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