Parte III, Lira III Marília de Dirceu · Capítulo 74 de 96
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Parte III, Lira III

Tu não verás, Marília, cem cativos

Tirarem o cascalho e a rica terra

Ou dos cercos dos rios caudalosos,

Ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro

Do pesado esmeril a grossa areia,

E já brilharem os granetes de ouro

No fundo da bateia.

Não verás derrubar os virgens matos;

Queimar as capoeiras ainda novas;

Servir de adubo à terra a fértil cinza;

Lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes

Das secas folhas do cheiroso fumo;

Nem espremer entre as dentadas rodas

Da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa

Altos volumes de enredados feitos;

Ver-me-ás folhear os grandes livros

E decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultos,

Tu me farás gostosa companhia

Lendo os fatos da sábia mestra História

E os cantos da Poesia.

Lerás em alta voz a imagem bela;

Eu, vendo que lhe dás o justo apreço,

Gostoso tornarei a ler de novo

O cansado processo.

Se encontrares louvada uma beleza,

Marília, não lhe invejes a ventura,

Que tens quem leve à mais remota idade

A tua formosura.

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