Parte II, Lira VIII Marília de Dirceu · Capítulo 41 de 96
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Parte II, Lira VIII

Eu vejo, ó minha Bela, aquele Nume

A quem o nome deram de Fortuna;

Pega-me pelo braço,

E com voz importuna

Me diz que mova o passo;

Que entre no grande Templo, em que se encerra

Quanto o destino manda,

Que ela obre sobre a terra.

Que coisas portentosas nele encontro!

Eu vejo a pobre fundação de Roma;

Vejo-a queimar Cartago;

Vejo que as gentes doma;

E vejo o seu estrago.

Lá floresce o poder do Assírio Povo;

Aqui os Medos crescem,

E os perde um braço novo.

Então me diz a Deusa: "E que pretendes?

"Todas estas medalhas ver agora?

"Ah! não, não sejas louco!

"Espaço de anos fora

"Para isso ainda pouco;

"Deixa estranhos sucessos, vem comigo;

"Verás quanto inda deve

"Acontecer contigo."

Levou-me aonde estava a minha história,

Que toda me explicou com modo, e arte.

"Tirei-te libras de ouro",

Me diz, "e quero dar-te

"Todo aquele tesouro.

"Não suspira por bens um peito nobre?

Severo lhe respondo,

"Vivo afeito a ser pobre."

Aqui me enruga a Deusa irada a testa,

E fica sem falar um breve espaço.

"Alegra, alegra o rosto",

Prossegue, "ali te faço

"Restituir o posto."

Respondo em ar de mofa, e tom sereno:

"Conheço-te, Fortuna,

"Posso morrer pequeno."

"Aqui te dou, me diz, a tua amada."

Então me banho todo de alegria.

"Cuidei, me torna a cega,

"Que essa alma não queria

"Nem esta mesma entrega."

"É esse o bem, respondo, que me move,

"Mas este bem é santo,

"Vem só da mão de Jove."

Queria mais falar; eu insofrido

Desta maneira rompo os seus acentos:

"Basta, Fortuna, basta,

"Estes breves momentos

"Lá noutras coisas gasta;

"Da minha sorte nada mais contemplo."

E, chamando Marília,

Suspiro, e deixo o Templo.

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