Parte II, Lira X Marília de Dirceu · Capítulo 43 de 96
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Parte II, Lira X

Arde o velho barril, arde a cabeça,

Em honra de João na larga rua;

O crédulo mortal agora indaga

Qual seja a sorte sua?

Eu não tenho alcachofra, que à luz chegue,

E nela orvalhe o Céu de madrugada,

Para ver se rebentam novas folhas

Aonde foi queimada.

Também não tenho um ovo, que despeje

Dentro dum copo d'água, e possa nela

Fingir palácios grandes, altas torres,

E uma nau à vela.

Mas, ah! em bem me lembre; eu tenho ouvido

Que a boca um bochecho d'água tome,

E atrás de qualquer porta atento esteja,

Até ouvir um nome.

Que o nome, que primeiro ouvir, é esse

O nome, que há de Ter a minha amada;

Pode verdade ser; se for mentira,

Também não custa nada.

Vou tudo executar, e de repente

Ouvi dizer o nome de Filena:

Despejo logo a boca: ah! não sei como

Não morro ali de pena!

Aparece Cupido: então soltando

Em ar de zombaria uma risada,

E que tal, me pergunta, esteve a peça?

Não foi bem pregada?

Eu já te disse, que Marília é tua:

Tu fazes do meu dito tanta conta,

Que vais acreditar o que te ensina

Velha mulher já tonta.

Humilde lhe respondo: Quem debaixo

Do açoite da Fortuna aflito geme,

Nas mesmas coisas, que só são brinquedos

Se agouram males, e teme.

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