Parte II, Lira V Marília de Dirceu · Capítulo 38 de 96
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Parte II, Lira V

Os mares, minha bela, não se movem,

O brando Norte assopra, nem diviso

Uma nuvem sequer na Esfera toda;

O destro Nauta aqui não é preciso;

Do seu governo a roda.

Mas ah! que o sul carrega, o mar se empola,

Rasga-se a vela, o mastaréu se parte!

Qualquer varão prudente aqui já teme;

Não tenho a necessária força, e arte.

Corra o sábio Piloto, corra, e venha

Reger o duro leme.

Como sucede à nau no mar, sucede

Aos homens na ventura, e na desgraça;

Basta ao feliz não ter total demência;

Mas quem de venturoso a triste passa,

Deve entregar o leme do discurso

Nas mãos da sã prudência.

Todo o Céu se cobriu, os raios chovem:

E esta alma, em tanta pena consternada,

Nem sabe aonde possa achar conforto.

Ah! não, não tardes, vem, Marília amada,

Toma o leme da nau, mareia o pano,

Vai-a salvar no porto.

Mas ouço já de Amor as sábias vozes:

Ele me diz que sofra, senão morro,

E perco então, se morro, uns doces laços;

Não quero já, Marília, mais socorro;

Oh! ditoso sofrer, que lucrar pode

A glória dos teus braços!

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