Parte III, Lira I Marília de Dirceu · Capítulo 72 de 96
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Parte III, Lira I

Convidou-me a ver seu Templo

O cego Cupido um dia;

Encheu-se de gosto o peito,

Fiz deste Deus um conceito

Como dele não fazia.

Aqui vejo descorados

Os terníssimos amantes,

Entre as cadeias gemerem;

Vejo nas piras arderem

As entranhas palpitantes.

A quem amas, quanto avistas

(Diz Cupido) não aterra;

Quem quer cingir o loureiro

Também vai sofrer primeiro

Todo o trabalho da guerra.

Contudo, que te dilates

Neste sítio não convenho;

Deixa a estância lastimosa,

Vem ver a sala formosa

Aonde o meu sólio tenho.

Entre noutro grande Templo;

Que perspectiva tão grata!

Tudo quanto nele vejo

Passa além do meu desejo,

E o discurso me arrebata.

É de mármore e de jaspe

O soberbo frontispício;

É todo por dentro de ouro;

E a um tão rico tesouro

Inda excede o artifício.

As janelas não se adornam

De sedas de finas cores;

Em lugar dos cortinados,

Estão presos e enlaçados

Festões de mimosas flores.

Em torno da sala augusta

Ardem dourados braseiros,

Queimam resinas que estalam

E postas em fumo exalam

Da Panchaia os gratos cheiros.

Ao pé do trono os seus Gênios

Alegres hinos entoam;

Dançam as Graças formosas,

E aqui as Horas gostosas

Em vez de correrem voam.

Estão sobre o pavimento

Igualmente reclinados,

Nos colos dos seus amores,

Os grandes Reis, e os Pastores,

De frescas rosas coroados.

Mal o acordo restauro,

Me diz o moço risonho,

Como ainda não reparas

Em tantas coisas tão raras,

De que este Templo componho?

Sabes a história de Jove?

Aqui tens o manso Touro,

Tens o Cisne decantado,

A Velha em que foi mudado,

Com a grossa chuva de ouro.

Aplica, Dirceu, agora

Os olhos ara esta parte,

Aqui tens a Lira d'ouro

Que inda estima o Pastor louro;

E a rede que enlaça a Marte.

Vês este arco destramente

De branco marfim ornado?

À casta Deusa servia,

E o perdeu quando dormia

Do gentil Pastor ao lado.

Vês esta lira? com ela

Tira Orfeu ao bem querido

Dos Infernos onde estava:

Vês este farol? guiava

Ao meu nadador de Abido.

Vês estas duas espadas

Ainda de sangue cheias?

A Tisbe e a Dido mataram;

E os fortes pulsos ornaram

De Píramo e mais de Eneias.

Sabes quem vai no navio,

Que este mar se levanta?

É Teseu. Vês esse pomo?

É de Cípide, assim como

São aqueles de Atlanta.

Vê agora estes retratos,

Que destros pincéis fizeram,

Ah! que pinturas divinas!

Todas são das heroínas,

Que mais vitórias me deram.

Repara nesse semblante,

É o semblante de Helena;

Lá se avista a Grega armada,

E aqui de Troia abrasada

Se mostra a funesta cena.

Vê est'outra formosura?

É a bela Deidamia;

Lá tens Aquiles ao lado,

De uma saia disfarçado,

Como com ela vivia.

Cleópatra é quem se segue:

Ali tens lançado a linha

Marco Antônio sossegado,

Ao tempo em que Augusto irado

Com armada nau caminha.

Aqui Hérmia se figura;

Vê um Sábio dos maiores,

Qual infame delinquente,

Ir desterrado, somente

Por cantar os seus amores.

Este é de Ônfale o retrato;

Aqui tens (quem o diria!)

Ao grande Hércules sentado

Com as mais damas no estrado,

Onde em seu obséquio fia.

Anda agora a est'outra parte,

Conheces, Dirceu, aquela?

Onde vais, lhe digo, explica,

Que beleza aqui nos fica,

Sem fazeres caso dela?

Ergo o rosto, ponho a vista

Na imagem não explicada,

Oh! quanto é digna de apreço!

Mal exclamo assim, conheço

Ser a minha doce amada.

O coração pelos olhos

Em terno pranto saía,

E no meu peito saltava;

Disfarçando Amor, olhava

Para mim a furto, e ria.

Depois de passado tempo,

A mim se chega, e me abala;

Desperto de tanto assombro;

Ele bate no meu ombro,

E assim afável me fala:

Sim, caro Dirceu, é esta

A divina formosura,

Que te destina Cupido;

Aqui tens o laço urdido

Da tua imortal ventura.

Um Nume, Dirceu, um Nume,

Que os trabalhos de um humano

Desta sorte felicita,

Não é como se acredita,

Não é um Nume tirano.

Olha se a cega Fortuna,

De tudo quanto se cria,

Ou nos mares, ou na terra,

Em seus tesouros encerra

Outro bem de mais valia?

Lisas faces cor-de-rosa,

Brancos dentes, olhos belos,

Lindos beiços encarnados,

Pescoço e peitos nevados,

Negros e finos cabelos,

Não valem mais que cingires,

Com braço de sangue imundo,

Na cabeça o verde louro?

Do que teres montes de ouro?

Do que dares leis ao mundo?

Ah! ensina, sim, ensina

Ao vil mortal atrevido,

E ao peito que adora terno,

Que tem, para um o Inferno,

Para outro um Céu, o Cupido.

Ao resto Amor me convida;

Eu, chorando, a mão lhe beijo

E lhe digo: Amor, perdoa

Não seguir-te; pois não voa

A ver mais o meu desejo.

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