Parte II, Lira XV Marília de Dirceu · Capítulo 48 de 96
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Parte II, Lira XV

Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro;

Fui honrado pastor da tua aldeia.

Vestia finas lãs e tinha sempre

A minha choça do preciso cheia.

Tiraram-me o casal e o manso gado;

Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.

Para ter que te dar, é que eu queria

De mor rebanho ainda ser o dono;

Prezava o teu semblante, os teus cabelos

Ainda muito mais que um grande trono.

Agora que te oferte já não vejo

Além de um puro amor, de um são desejo.

Se o rio levantado me causava,

Levando a sementeira, prejuízo,

Eu alegre ficava apenas via

Na tua breve boca um ar de riso.

Tudo agora perdi; nem tenho o gosto

De ver-te ao menos compassivo o rosto.

Propunha-me dormir no teu regaço

Às quentes horas da comprida sesta,

Escrever teus louvores nos olmeiros,

Toucar-te de papoulas na floresta.

Julgou o justo Céu que não convinha

Que a tanto grau subisse a glória minha.

Ah! Minha bela, se a Fortuna volta,

Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;

Por essas brancas mãos, por essas faces

Te juro renascer um homem novo;

Romper a nuvem que os meus olhos cerra,

Amar no Céu a Jove e a ti na Terra.

Fiadas comprarei as ovelhinhas,

Que pagarei dos poucos do meu ganho;

E dentro em pouco tempo nos veremos

Senhores outra vez de um bom rebanho.

Para o contágio lhe não dar, sobeja

Que as afague Marília, ou só que as veja.

Se não tivermos lãs e peles finas,

Podem mui bem cobrir as carnes nossas

As peles dos cordeiros mal curtidas,

E os panos feitos com as lãs mais grossas.

Mas ao menos será o teu vestido

Por mãos de Amor, por minhas mãos cosido.

Nós iremos pescar na quente sesta

Com canas, e com cestos os peixinhos:

Nós iremos caçar nas manhãs frias

Com a vara envisgada os passarinhos.

Para nos divertir faremos quanto

Reputa o varão sábio, honesto e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos

C'os filhos, se os tivermos, à fogueira;

Entre as falsas histórias que contares

Lhes contarás a minha, verdadeira.

Pasmados te ouvirão; eu entretanto

Ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua

Nos mostrarão c'o dedo os mais pastores,

Dizendo uns para os outros: "Olha os nossos

Exemplos da desgraça, e sãos amores".

Contentes viveremos desta sorte,

Até que chegue a um dos dois a morte.

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