Parte II, Lira XXVI Marília de Dirceu · Capítulo 59 de 96
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Parte II, Lira XXVI

Aquele a quem fez cego a natureza

C'o bordão palpa, e aos que vêm pergunta;

Ainda se despenha muitas vezes,

E dois remédios junta!

De ser cega a Fortuna eu não me queixo;

Sim me queixo de que má cega seja:

Cega que nem pergunta, nem apalpa,

É porque errar deseja.

A quem não tem virtudes, nem talentos,

Ela, Marília, faz de um Cetro dono:

Cria num pobre berço uma alma digna

De se sentar num Trono.

A quem gastar não sabe, nem se anima,

Entrega as grossas chaves de um tesouro;

E lança na miséria a quem conhece

Para que serve o ouro.

A quem fere, a quem rouba, a infame deixa

Que atrás do vício em liberdade corra;

Eu amo as leis do Império, ela me oprime

Nesta vil masmorra.

Mas ah! Minha Marília, que esta queixa

Co'a sólida razão se não coaduna;

Como me queixo da Fortuna tanto,

Se sei não há Fortuna?

Os Fados, os Destinos, essa Deusa,

Que os Sábios fingem, que uma roda move,

É só a couta mão da Providência,

A sábia mão de Jove.

Não é que somos cegos, que não vemos

A que fins nos conduz por estes modos;

Por torcidas estradas, ruins veredas

Caminha ao bem de todos.

Alegre-se o perverso com as ditas;

C'o seu merecimento o virtuoso;

Parecer desgraçado, ó minha Bela,

É muito mais honroso.

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