Parte II, Lira XVII Marília de Dirceu · Capítulo 50 de 96
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Parte II, Lira XVII

Dirceu te deixa, ó Bela,

De padecer cansado;

Frio suor já banha

Seu rosto descorado;

O sangue já não gira pela veia,

Seus pulsos já não batem,

E a clara luz dos olhos se baceia:

A lágrima sentida já lhe corre;

Já para a convulsão, suspira e morre.

Seu espírito chega

Onde se pune o erro:

Late o cão e se lhe abrem

Grossos portões de ferro.

Aos severos Juízes se apresenta,

E com sentidas vozes

Toda a sua tragédia representa;

Enche-se de ternura, e novo espanto

O mesmo inexorável Radamanto.

Abre um pasmado a boca,

E a pedra não despede;

Outro já não se lembra

Da fome e mais da sede;

Descansa o curvo bico e a garra ímpia

Negro abutre esfaimado;

Nem na roca medonha a Parca fia.

Até as mesmas Fúrias inclementes

Deixam cair das unhas as serpentes.

Já votam os Juízes;

E o Rei Plutão lhe ordena

Deixe o sítio, em que moram

Almas dignas de pena.

Já sai do escuro Reino, e da memória

Lhe passa tudo quanto

Ou pode dar-lhe mágoa, ou dar-lhe glória

Só, bem que o gosto as turvas águas tome,

Inda, Marília, inda diz teu nome.

Entra já nos Elísios,

Campinas venturosas,

Que mansos rios cortam,

Que cobrem sempre as rosas.

Escuta o canto das sonoras aves,

E bebe as águas puras,

Que o mel, e do que o leite mais suaves,

Aqui, diz ele, espero a minha Bela;

Aqui contente viverei com ela.

Aqui... Porém aonde

Me leva a dor ativa?

É ilusão desta alma;

Jove inda quer que eu viva.

Eu devo sim gozar teus doces laços;

E em paga de meus males,

Devo morrer, Marília, nos teus braços.

Então eu passarei ao Reino amigo,

E tu irás depois lá ter comigo.

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