Parte II, Lira XXIII Marília de Dirceu · Capítulo 56 de 96
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Parte II, Lira XXIII

Não praguejes, Marília, não praguejes

A justiceira mão, que lança os ferros;

Não traz debalde a vingadora espada;

Deve punir os erros.

Virtudes de Juiz, virtudes de homem

As mãos se deram, e em seu peito moram.

Manda prender ao Réu austera a boca,

Porém seus olhos choram.

Se à inocência denigre a vil calúnia,

Que culpa aquele tem, que aplica a pena?

Não é o Julgador, é o processo,

E a lei, quem nos condena.

Só no Averno os Juízes não recebem

Acusação, nem prova de outro humano;

Aqui todos confessam suas culpas,

Não pode haver engano.

Eu vejo as Fúrias afligindo aos tristes:

Uma o fogo chega, outra as serpes move;

Todos maldizem sim a sua estrela,

Nenhum acusa a Jove.

Eu também inda adoro ao grande Chefe,

Bem que a prisão me dá, que eu não mereço.

Qual eu sou, minha Bela, não me trata,

Trata-me qual pareço.

Quem suspira, Marília, quando pune

Ao vassalo, que julga delinquente,

Que gosto não terá, podendo dar-lhe

Às honras de inocente?

Tu vences, Barbacena, aos mesmos Titos

Nas sãs virtudes, que no peito abrigas:

Não honras tão somente a quem premeias,

Honras a quem castigas.

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