Parte II, Lira III Marília de Dirceu · Capítulo 36 de 96
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Parte II, Lira III

Sucede, Marília bela,

À medonha noite o dia;

A estação chuvosa e fria

À quente e seca estação.

Muda-se a sorte dos tempos;

Só a minha sorte não?

Os troncos nas Primaveras

Brotam em flores viçosos,

Nos Invernos escabrosos

Largam as folhas no chão.

Muda-se a sorte dos troncos;

Só a minha sorte não?

Aos brutos, Marília, cortam

Armadas redes os passos,

Rompem depois os seus laços,

Fogem da dura prisão.

Muda-se a sorte dos brutos;

Só a minha sorte não?

Nenhum dos homens conserva

Alegre sempre o seu rosto;

Depois das penas vem gosto,

Depois de gosto aflição.

Muda-se a sorte dos homens;

Só a minha sorte não?

Aos altos Deuses moveram

Soberbos Gigantes guerra;

No mais tempos o Céu, e a Terra

Lhes tributa adoração.

Muda-se a sorte dos Deuses;

Só a minha sorte não?

Há de, Marília, mudar-se

Do destino a inclemência;

Tenho por mim a inocência,

Tenho por mim a razão.

Muda-se a sorte de tudo;

Só a minha sorte não?

O tempo, ó Bela, que gasta

Os troncos, pedras, e o cobre,

O véu rompe, com que encobre

À verdade a vil traição.

Muda-se a sorte de tudo;

Só a minha sorte não?

Qual eu sou, verá o mundo;

Mais me dará do que eu tinha,

Tornarei a ver-te minha;

Que feliz consolação!

Não há de tudo mudar-se;

Só a minha sorte não.

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