Parte III, Lira IV Marília de Dirceu · Capítulo 75 de 96
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Parte III, Lira IV

Amor por acaso

a um pouso chegava,

aonde acolhida

a Morte se achava.

Risonhos e alegres,

os braços se deram,

e as armas unidas

num sítio puseram.

De empresas tamanhas

cansados já vinham,

e em larga conversa

a noite entretinham.

Um conta que há pouco

a seta aguçada

em uma beleza

deixara empregada.

Diz outro que as flechas

cravara no peito

de um grande, que teve

o mundo sujeito.

Enquanto das forças

cada um presumia,

seus membros já lassos

o sono rendia.

Dormindo tranqüilos,

a noite passaram,

e inda antes da aurora

com ânsia acordaram.

— É tempo que o leito

deixemos, ó Morte -

Amor, já erguido,

falou desta sorte.

— É tempo, - em reposta

a Morte repete -

que à nossa fadiga

dormir não compete.

As armas colhamos,

voltemos ao giro:

cada um a seu gosto

empregue o seu tiro.

Vão, inda cos olhos

em sono turbados,

ao sítio em que os ferros

estão pendurados.

Amor para as setas

da Morte se enclina;

de Amor logo a Morte

co'as flechas atina.

Oh! golpes tiramos!

oh! mãos homicidas!

são tiros da Morte

de Amor as feridas.

De um sonho, que pinto,

Marília, conhece

se amor, ou se morte

esta alma padece.

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