Parte II, Lira XXVIII Marília de Dirceu · Capítulo 61 de 96
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Parte II, Lira XXVIII

Detém-te, vil humano;

Não espremas a cicuta

Para fazer-me dano.

O sumo que ela dá é pouco forte;

Procura outras bebidas,

Que apressem mais a morte.

Desce ao Reino profundo.

Ajunta aí venenos

Que nunca visse o mundo:

Traze o negro licor que têm nos dentes,

Nos dentes denegridos,

As raivosas serpentes.

Cachopo levantado,

Que pôs a natureza

Dentro no mar salgado,

Não se abala no meio da tormenta;

Bem que uma onda, e outra onda

Sobre ele em flor rebenta.

Árvore, que na terra

As robustas raízes,

Buscando o centro, a ferra,

Não teme ao furacão mais violento,

E menos, se se deixa

Vergar do rijo vento.

Sou tronco, e rocha, ó Bela,

Que açoita o Sul, que brama,

E o mar, que se encapela:

Não temas que do rosto a cor se mude;

Vence as rochas, e os troncos

A sólida Virtude.

A maior desventura

É sempre a que nos lança

No horror da sepultura:

O covarde a morrer também caminha;

Com que males não pode

Uma alma como a minha?

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