Parte II, Lira VII Marília de Dirceu · Capítulo 40 de 96
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Parte II, Lira VII

Meu prezado Glauceste,

Se fazes o conceito

Que, bem que réu, abrigo

A cândida virtude no meu peito;

Se julgas, digo, que mereço ainda

Da tua mão socorro,

Ah! vem dar-mo agora,

Agora sim que morro.

Não quero que, montado

No Pégaso fogoso,

Venhas com dura lança

Ao monstro infame traspassar raivoso.

Deixa que viva a pérfida calúnia

E forje o meu tormento:

Com menos, meu Glauceste,

Com menos me contento.

Toma a lira dourada

E toca um pouco nela:

Levanta a voz celeste

Em parte que te escute a minha Bela;

Enche todo o contorno de alegria;

Não sofras, que o desgosto

Afogue em pranto amargo

O seu divino rosto.

Eu sei, eu sei, Glauceste,

Que um bom cantor havia,

Que os brutos amansava;

Que os troncos e os penedos atraía.

De outro destro Cantor também afirma

A sábia antiguidade,

Que as muralhas erguera

De uma grande Cidade.

Orfeu as cordas fere;

O som delgado e terno

Ao Rei Plutão abranda,

E o deixa que penetre o fundo Averno.

Ah! tu a nenhum cedes, meu Glauceste,

Na lira, e mais no canto;

Podes fazer prodígios,

Obrar ou mais, ou tanto.

Levanta pois as vozes:

Que mais, que mais esperas?

Consola um peito aflito,

Que é menos ainda que domar as feras.

Com isto me darás no meu tormento

Um doce lenitivo;

Que enquanto a Bela vive,

Também, Glauceste, vivo.

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