Parte II, Lira XXIV Marília de Dirceu · Capítulo 57 de 96
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Parte II, Lira XXIV

Eu vou, Marília, vou brigar co'as feras!

Uma soltaram, eu lhe sinto os passos;

Aqui, aqui a espero

Nestes despidos braços.

É um malhado tigre: a mim já corre,

Ao peito o aperto, estalam-lhe as costelas,

Desfalece, cai, urra, treme, e morre.

Vem agora um Leão: sacode a grenha,

Com faminta paixão a mim se lança;

Venha embora; que o pulso

Ainda não se cansa.

Oprimo-lhe a garganta, a língua estira,

O corpo lhe fraqueia, os olhos incham,

Açoita o chão convulso, arqueja, e expira.

Mas que vejo, Marília! Tu te assustas?

Entendes que os destinos inumanos

Expõem a minha vida

No circo dos Romanos?

Com ursos, e com onças eu não luto:

Luto c'o bravo monstro, que me acusa,

Que os tigres, e leões mais fero e bruto.

Embora contra mim raivoso esgrima

Da vil calúnia a cortadora espada;

Uma alma, qual eu tenho,

Não se receia a nada.

Eu hei de, sim, punir-lhe a insolência,

Pisar-lhe o negro colo, abrir-lhe o peito

Co'as armas invencíveis da inocência.

Ah! quando imaginar, que vingativo

Mando que desça ao Tártaro profundo,

Hei de com mão honrada

Erguer-lhe o corpo imundo.

Eu então lhe direi: Infame, indigno,

Obras como costuma o vil humano;

Faço, o que faz um coração divino.

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