Parte I, Lira IX Marília de Dirceu · Capítulo 9 de 96
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Parte I, Lira IX

Eu sou, gentil Marília, eu sou cativo;

Porém não me venceu a mão armada

De ferro e de furor:

Uma alma sobre todas elevada

Não cede a outra força que não seja

A tenra mão de Amor.

Arrastem pois os outros muito embora

Cadeias nas bigornas trabalhadas

Com pesados martelos:

Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas

Com duros ferros, não; com fios d'ouro,

Que são os teus cabelos.

Oculto nos teus meigos vivos olhos

Cupido a tudo faz tirana guerra:

Sacode a seta ardente,

E sendo despedida cá da terra

As nuvens rompe, chega ao alto Empíreo:

E chega ainda quente.

As abelhas nas asas suspendidas

Tiram, Marília, os sucos saborosos

Das orvalhadas flores:

Pendentes dos teus beijos graciosos

O mel não chupam, chupam ambrosias

Nunca fartos Amores.

O Vento quando parte em largas fitas

As folhas, que meneia com brandura;

A fonte cristalina,

Que sobre as pedras cai de imensa altura;

Não forma um som tão doce como forma

A tua voz divina.

Em torno dos teus peitos que palpitam

Exaltam mil suspiros desvelados

Enxames de desejos;

Se encontram os teus olhos descuidados,

Por mais que se atropelem, voam, chegam;

E dão furtivos beijos.

O Cisne, quando corta o manso largo,

Erguendo as brancas asas e o pescoço;

A Nau, que ao longe passa

Quando o vento lhe enfuna o pano grosso,

O teu garbo não tem, minha Marília,

Não tem a tua graça.

Estima pois os mais a liberdade;

Eu prezo o cativeiro: sim, nem chamo

À mão de amor ímpia:

Honro a virtude, e os teus dotes amo:

Também o grande Aquiles veste a saia,

Também Alcides fia.

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