Parte II, Lira XXXVIII Marília de Dirceu · Capítulo 71 de 96
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Parte II, Lira XXXVIII

Eu vejo aquela Deusa,

Astreia pelos sábios nomeada;

Traz nos olhos a venda,

Balança numa mão, na outra espada.

O vê-la não me causa um leve abalo,

Mas, antes, atrevido,

Eu a vou procurar, e assim lhe falo:

Qual é o povo, dize,

Que comigo concorre no atentado?

Americano Povo?

O Povo mais fiel e mais honrado:

Tira as Praças das mãos do injusto dono,

Ele mesmo as submete

De novo à sujeição do Luso Trono!

Eu vejo nas histórias

Rendido Pernambuco aos Holandeses;

Eu vejo saqueada

Esta ilustre Cidade dos Franceses;

Lá se derrama o sangue brasileiro;

Aqui não basta, supre

Das roubadas famílias o dinheiro...

Enquanto assim falava,

Mostrava a Deusa não me ouvir com gosto;

Punha-me a vista tesa,

Enrugava o severo e aceso rosto.

Não suspendo contudo no que digo;

Sem o menor receio,

Faço que a não entendo, e assim prossigo:

Acabou-se, tirana,

A honra, o zelo deste Luso Povo?

Não é aquele mesmo,

Que estas ações obrou? É outro novo?

E pode haver direito, que te mova

A supor-nos culpados,

Quando em nosso favor conspira a prova?

Há em Minas um homem,

Ou por seu nascimento, ou seu tesouro,

Que aos outros mover possa

À força de respeito, à força d'ouro?

Os bens de quantos julgas rebelados

Podem manter na guerra,

Por um ano sequer, a cem soldados?

Ama a gente assisada

A honra, a vida, o cabedal tão pouco,

Que ponha uma ação destas

Nas mãos dum pobre, sem respeito e louco?

E quando a comissão lhe confiasse,

Não tinha pobre soma,

Que por paga, ou esmola, lhe mandasse!

Nos limites de Minas,

A quem se convidasse não havia?

Ir-se-iam buscar sócios

Na Colônia também, ou na Bahia?

Está voltada a Corte brasileira

Na terra dos Suíços,

Onde as Potências vão erguer bandeira?

O mesmo autor do insulto

Mais a riso, do que a temor me move;

Dou-lhe nesta loucura,

Podia-se fazer Netuno ou Jove.

A prudência é tratá-lo por demente;

Ou prendê-lo, ou entregá-lo

Para dele zombar a moça gente.

Aqui, aqui a Deusa

Um extenso suspiro aos ares solta;

Repete outro suspiro,

E sem palavra dar, as costas volta.

Tu te irritas! Lhe digo e quem te ofende?

Ainda nada ouviste

Do que respeita a mim; sossega, atende.

E tinha que ofertar-me

Um pequeno, abatido e novo Estado,

Com as armas de fora,

Com as suas próprias armas consternado?

Achas também que sou tão pouco esperto,

Que um bem tão contingente

Me obrigasse a perder um bem já certo?

Não sou aquele mesmo,

Que a extinção do débito pedia?

Já viste levantado

Quem à sombra da paz alegre ria?

Um direito arriscado eu busco, e feio,

E quero que se evite

Toda a razão do insulto, e todo o meio?

Não sabes quanto apresso

Os vagarosos dias da partida?

Que a fortuna risonha,

A mais formosos campos me convida?

Daqui nem ouro quero;

Quero levar somente os meus amores.

Eu, ó cega, não tenho

Um grosso cabedal, do mais herdado:

Não o recebi no emprego,

Não tenho as instruções dum bom soldado,

Far-me-iam os rebeldes o primeiro

No império que se erguia

À custa do seu sangue, e seu dinheiro?

Aqui, aqui de todo

A Deusa se perturba, e mais se altera;

Morde o seu próprio beiço;

O sítio deixa, nada mais espera.

Ah! vai-te, então lhe digo, vai-te embora;

Melhor, minha Marília,

Eu gastasse contigo mais esta hora.

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