Parte II, Lira XVI Marília de Dirceu · Capítulo 49 de 96
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Parte II, Lira XVI

Vejo, Marília,

Que o nédio gado

Anda disperso

No monte e prado;

Que assim sucede

Ao desgraçado,

Que a perder chega

O seu Pastor.

Mas inda sofro

A viva dor.

Também conheço

Que os Pegureiros

Que apascentavam

Os meus cordeiros

Dão suspiros,

E verdadeiros,

Porque perderam

Um pai no amor.

Mas inda sofro

A viva dor.

Eu mais alcanço,

Que a minha herdade,

Estando eu preso,

Sofrer não há de

Nem a charrua,

E nem a grade;

Que a mão lhe falta

Do Lavrador.

Mas inda sofro

A viva dor.

Mas quando sobe

À minha ideia,

Que tu ficaste

Lá nessa aldeia,

De mil cuidados

E mágoa cheia,

Das paixões minhas

Não sou senhor.

Eu já não sofro

A viva dor.

A quanto chega

A pena forte!

Pesa-me a vida,

Desejo a morte,

A Jove acuso,

Maldigo a sorte,

Trato a Cupido

Por um traidor.

Eu já não sofro

A viva dor.

Mas este excesso

Perdão merece,

E dele Jove

Compadece:

Que Jove, ó Bela,

Mui bem conhece,

Aonde chega

Paixão de amor.

Eu já não sofro

A viva dor.

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