Capítulo XVI O Asno de Ouro · Capítulo 17 de 53
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Capítulo XVI

Certo dia, Fótis veio correndo a mim, tomada de grande medo, e disse que sua senhora, para praticar feitiços sobre aqueles que amava, pretendia transformar-se em pássaro na noite seguinte e voar para onde lhe aprouvesse. Por isso me pediu que, em segredo, me preparasse para ver aquilo.

Quando chegou a meia-noite, ela me conduziu suavemente até uma câmara alta e mandou que eu olhasse pela fresta de uma porta.

Primeiro vi como Panfília tirou todas as roupas. Depois retirou de certo cofre diversos tipos de caixas. Abriu uma delas, mexeu o unguento que havia dentro com os dedos e então esfregou o próprio corpo com ele, da planta dos pés até o alto da cabeça.

Depois de falar consigo mesma em segredo, tendo uma vela na mão, sacudiu as partes do corpo. Eis que percebi penas brotando; seu nariz tornou-se curvo e duro; suas unhas transformaram-se em garras; e assim ela se tornou uma coruja.

Então gritou e guinchou como ave daquela espécie. Desejando provar sua força, ergueu-se pouco a pouco do chão, até que enfim voou completamente para longe.

Assim, por sua feitiçaria, transformava o corpo na forma que desejasse.

Quando vi aquilo, fiquei grandemente atônito. E, embora não estivesse encantado por nenhuma espécie de feitiço, pareceu-me que já não conservava a semelhança de Lúcio. Tão banido de meus sentidos fiquei, tão assombrado em loucura, que sonhava acordado. Toquei os próprios olhos para saber se estava dormindo ou não.

Mas, voltando a mim, tomei Fótis pela mão, levei-a ao meu rosto e disse:

— Peço-te, enquanto a ocasião serve, permite que eu desfrute do fruto do meu desejo. Concede-me um pouco deste unguento.

— Ó Fótis, peço-te por teu doce peito: faze com que, nas grandes chamas de meu amor, eu seja transformado em pássaro. Assim ficarei para sempre ligado a ti e obediente a teu mandamento.

Então Fótis respondeu:

— Queres agora enganar-me e forçar-me a causar minha própria tristeza? Estás com intenção de não permanecer na Tessália? Se te tornares pássaro, onde te procurarei? E quando te verei?

Respondi:

— Deus me livre de cometer crime assim. Ainda que eu pudesse voar pelo ar como águia, ou fosse o mensageiro de Júpiter, voltaria sempre para fazer ninho contigo.

— Juro pelo nó de teus cabelos amáveis que, desde o tempo em que primeiro te amei, nunca desejei outra pessoa.

— Além disso, vem-me agora à mente que, se pela virtude do unguento eu me tornar uma coruja, cuidarei para não me aproximar da casa de ninguém. Pois sei bem como essas matronas tratariam seus amantes se soubessem que eles foram transformados em corujas.

— Quando tais aves são apanhadas em algum lugar, são pregadas em postes; e assim recebem castigo merecido, pois se acredita que trazem má fortuna à casa.

— Mas peço-te — coisa de que quase me esqueci —, conta-me por qual meio, quando eu for coruja, voltarei à minha forma antiga e me tornarei Lúcio novamente.

— Não temas — disse ela —, pois minha senhora ensinou-me o modo de fazer isso. Não penses que ela o fez por boa vontade ou favor, mas para que eu a ajudasse e lhe ministrasse algum remédio quando ela volta para casa.

— Considera contigo mesmo por quais ninharias frívolas se realiza coisa tão maravilhosa: por Hércules, juro que não lhe dou nada além de um pouco de endro e folhas de louro em água de poço, que ela bebe e com que se lava.

Depois de dizer isso, entrou na câmara e tirou uma caixa do cofre. Primeiro a beijei e abracei, rogando que eu tivesse bom sucesso em meu propósito. Então tirei todas as roupas e enfiei avidamente a mão na caixa. Tomei grande quantidade do unguento e esfreguei-me todo com ele.

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