Capítulo XXXIV
Depois de termos avançado boa parte de nosso caminho, chegamos a um bosque cercado de grandes árvores e rodeado de prados agradáveis. Ali os pastores decidiram permanecer por algum tempo, para curar suas feridas e chagas.
Sentaram-se no chão para refrescar os espíritos cansados; depois procuraram remédios para curar os corpos. Alguns lavavam o sangue com a água de um rio corrente; outros estancavam as feridas com esponjas e panos. Desse modo, cada um cuidava da própria segurança.
Nesse meio tempo, vimos um velho que parecia pastor, por causa das cabras e ovelhas que pastavam ao redor dele. Então um dos nossos perguntou se tinha leite, manteiga ou queijo para vender.
O velho respondeu:
— Procurais comida, bebida ou algum outro refresco aqui? Não sabeis em que lugar estais?
Dito isso, tomou suas ovelhas e as afastou o mais depressa que pôde.
Essa resposta deixou nossos pastores muito assustados, de modo que não pensavam em outra coisa senão descobrir em que terra estavam. Contudo, não viam pessoa alguma a quem pudessem perguntar.
Por fim, enquanto permaneciam em dúvida, perceberam outro velho, com um bastão na mão, muito cansado da viagem. Aproximando-se de nossa companhia, começou a chorar e a lamentar, dizendo:
— Ai, senhores, peço-vos que socorrais a mim, miserável coitado, e me devolvais meu sobrinho. Ele, seguindo um pardal que voava diante dele, caiu num fosso aqui perto, e creio verdadeiramente que está em perigo de morte.
— Quanto a mim, não posso ajudá-lo por causa da minha velhice. Mas vós, que sois tão valentes e fortes, podeis facilmente socorrer-me e libertar meu menino, herdeiro e guia de minha vida.
Essas palavras fizeram todos se compadecerem dele.
Então o mais jovem e mais robusto de nossa companhia — aquele que escapara melhor da recente batalha contra cães e pedras — levantou-se e perguntou em que fosso o menino havia caído.
— Ali — disse o velho, apontando com o dedo.
E o conduziu a um grande matagal de arbustos e espinhos, onde os dois entraram.
Enquanto isso, depois de curarmos as feridas, recolhemos os fardos com intenção de partir. Mas, como não queríamos sair sem o jovem companheiro, os pastores assobiaram e o chamaram. Como ele não respondeu, enviaram um deles para procurá-lo.
Depois de algum tempo, esse homem voltou com o rosto pálido e notícias terríveis, dizendo que vira um dragão monstruoso comendo e devorando o companheiro; quanto ao velho, não pôde vê-lo em parte alguma.
Quando ouviram isso, e também se lembraram das palavras do primeiro velho que sacudira a cabeça e afastara as ovelhas, fugiram daquela região deserta e pestilenta, batendo em nós para que corrêssemos adiante.