Capítulo XXXV
Depois de termos percorrido grande parte do caminho, chegamos a uma aldeia onde passamos a noite. Mas ouvi agora que desgraça aconteceu ali.
Havia um servo a quem seu senhor confiara todo o governo da casa. Ele era também administrador da hospedaria em que ficamos. Esse servo casara-se com uma jovem da mesma casa; contudo, estava grandemente apaixonado por uma prostituta da cidade, e costumava procurá-la frequentemente.
Sua esposa, profundamente ofendida por isso e tomada por ciúme violento, reuniu todos os bens do marido, juntamente com seus registros e livros de contas, e lançou tudo num fogo aceso.
Mas não se contentou com tal vingança. Tomou uma corda, amarrou ao próprio corpo o filho que tivera com o marido e lançou-se de cabeça num poço profundo.
O senhor da casa, muito indignado com a morte dos dois, agarrou o servo, causa daquela tragédia por sua luxúria. Primeiro mandou que lhe tirassem todas as roupas; depois ungiu-lhe todo o corpo com mel e o amarrou firmemente a uma figueira.
No tronco podre daquela árvore havia grande número de formigas, que ali haviam feito seus ninhos. Assim que sentiram a doçura do mel, avançaram sobre o corpo do homem. Pouco a pouco, com o passar do tempo, devoraram-lhe toda a carne, de modo que, preso à árvore, nada restou senão seus ossos nus.
Isso nos foi contado pelos habitantes da aldeia, que lamentavam muito a morte daquele servo. Então nós, fugindo também daquele alojamento terrível, partimos imediatamente.