Livro 1 — Capítulo I A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 1 de 182
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Livro 1 — Capítulo I

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Em Damme, nas Flandres, quando maio abria as flores dos pilriteiros, nasceu Ulenspiegel, filho de Claes.

Uma comadre parteira e sábia, chamada Katheline, envolveu-o em cueiros quentes e, depois de examinar-lhe a cabeça, mostrou ali uma película.

— Nasceu com a coifa, sob uma boa estrela! — disse ela alegremente.

Mas logo, pondo-se a lamentar e apontando uma pequena pinta negra no ombro da criança:

— Ai! — chorou. — É a marca negra do dedo do diabo.

— Então o senhor Satanás — tornou Claes — levantou-se bem cedo, para já ter tido tempo de marcar meu filho?

— Ele nem sequer se deitou — disse Katheline —, pois só agora Cantaclaro desperta as galinhas.

E saiu, deixando a criança nas mãos de Claes.

Então a aurora rompeu as nuvens da noite, as andorinhas passaram rasantes sobre os prados, soltando gritos, e o sol mostrou no horizonte, purpúrea, a sua face deslumbrante.

Claes abriu a janela e, falando a Ulenspiegel:

— Filho nascido com a coifa — disse ele —, eis monsenhor Sol, que vem saudar a terra de Flandres. Contempla-o quando puderes e, quando mais tarde te vires enredado em alguma dúvida, sem saber o que deves fazer para agir bem, pede-lhe conselho. Ele é claro e quente: sê sincero como ele é claro, e bom como ele é quente.

— Claes, meu homem — disse Soetkin —, estás pregando a um surdo. Vem beber, meu filho.

E a mãe ofereceu ao recém-nascido seus belos frascos naturais.

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