Livro 1 — Capítulo LXII A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 62 de 182
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Livro 1 — Capítulo LXII

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Certo dia, Ulenspiegel chegou a Nuremberg e apresentou-se como grande médico, vencedor de enfermidades, ilustríssimo purgador, célebre domador de febres, afamado varredor de pestes e invencível açoite das sarnas.

Havia tantos enfermos no hospital que não sabiam onde alojá-los.

O administrador do hospital, sabendo da chegada de Ulenspiegel, foi procurá-lo e perguntou-lhe se era verdade que podia curar todas as doenças.

— Exceto a última — respondeu Ulenspiegel. — Mas promete-me duzentos florins pela cura de todas as outras, e não quero receber um liard antes que todos os vossos enfermos se declarem curados e saiam do hospital.

No dia seguinte, chegou ao referido hospital com olhar seguro e ostentando doutoralmente a cara solene.

Percorrendo as enfermarias, tomou cada paciente à parte e lhe disse:

— Jura que não revelarás a ninguém o que vou contar-te ao ouvido. Que doença tens?

O enfermo dizia-lhe e jurava por seu grande Deus guardar silêncio.

— Fica sabendo — dizia Ulenspiegel — que preciso reduzir um de vós a cinzas pelo fogo. Com essas cinzas farei uma mistura maravilhosa e a darei de beber a todos os enfermos. Aquele que não souber caminhar será queimado. Amanhã virei aqui e, permanecendo na rua com o administrador, chamarei todos, gritando: “Aquele que não estiver doente recolha sua bagagem e venha!”

Na manhã seguinte, Ulenspiegel veio e gritou como havia prometido.

Todos os enfermos, coxos, catarrosos, tossidores e febris quiseram sair ao mesmo tempo. Todos estavam na rua, até aqueles que havia dez anos não deixavam o leito.

O administrador perguntou-lhes se estavam curados e podiam caminhar.

— Sim — responderam, acreditando que algum deles queimava no pátio.

Ulenspiegel disse então ao administrador:

— Paga-me, pois todos estão do lado de fora e declaram-se curados.

O administrador pagou-lhe duzentos florins.

E Ulenspiegel partiu.

Mas, no segundo dia, o administrador viu regressarem os enfermos em estado pior do que antes, salvo um que, curado pelo ar livre, foi encontrado bêbado e cantando pelas ruas:

— Natal ao grande doutor Ulenspiegel!

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