Livro 4 — Capítulo XIX A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 168 de 182
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Livro 4 — Capítulo XIX

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Em meados de agosto, quando as galinhas saciadas de grão permanecem surdas ao chamado do galo que lhes apregoa seus amores, Ulenspiegel disse a seus marinheiros e soldados:

— O duque de sangue ousa, estando em Utrecht, publicar ali um santo édito, prometendo, entre outras graças: fome, morte e ruína aos habitantes dos Países Baixos que não quiserem submeter-se. Tudo quanto ainda permanece inteiro será, diz ele, exterminado, e Sua Majestade Real fará estrangeiros habitarem o país. Morde, duque, morde! A lima quebra o dente das víboras. Nós somos limas. Viva o Mendigo!

“Alba, o sangue te embriaga! Pensas que tememos tuas ameaças ou acreditamos em tua clemência? Teus ilustres regimentos, cujos louvores cantavas no mundo inteiro, teus Invencíveis, teus Tais-Quais, teus Imortais, permaneceram sete meses bombardeando Haarlem, cidade fraca defendida por burgueses. Dançaram, como simples mortais, pelos ares, ao som das minas que explodiam. Burgueses envolveram-nos em alcatrão. Acabaram por vencer gloriosamente, degolando os desarmados. Ouves, carrasco, a hora de Deus que toca?

“Haarlem perdeu seus valentes defensores. Suas pedras suam sangue. Perdeu e gastou no cerco um milhão duzentos e oitenta mil florins. O bispo foi reintegrado. Com mão ágil e cara alegre, abençoa as igrejas. Don Frédéric está presente a essas bênçãos. O bispo lava-lhe as mãos, que Deus vê vermelhas, e ele comunga sob as duas espécies, o que não é permitido ao pobre povo.

“E os sinos tocam, e o carrilhão lança no ar suas notas tranquilas e harmoniosas. É como um canto de anjos sobre um cemitério.

“Olho por olho! Dente por dente! Viva o Mendigo!”

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