Livro 3 — Capítulo XLII
Livro 3 — Capítulo XLII
Naquele dia, o rei Filipe, tendo comido doces demais, estava ainda mais melancólico que de costume.
Tocara em seu cravo vivo, que era uma caixa encerrando gatos cujas cabeças saíam por aberturas redondas acima das teclas.
Cada vez que o rei apertava uma tecla, ela por sua vez golpeava o gato com uma ponta, e o animal miava e se lamentava de dor.
Mas Filipe não ria.
Procurava sem descanso no espírito um meio de vencer Isabel, a grande rainha, e recolocar Maria Stuart no trono da Inglaterra.
Com esse propósito, escrevera ao papa necessitado e endividado. O papa respondera que venderia de boa vontade, para a empresa, os vasos sagrados dos templos e os tesouros do Vaticano.
Mas Filipe não ria.
Ridolfi, favorito da rainha Maria, que esperava libertá-la, desposá-la depois e tornar-se rei da Inglaterra, veio ver Filipe para conspirar com ele pelo assassinato de Isabel.
Mas era tão falador, segundo escreveu o rei, que na Bolsa de Antuérpia já se comentava em voz alta seu plano.
E o assassinato não aconteceu.
E Filipe não ria.
Mais tarde, por ordem do rei, o duque de sangue enviou à Inglaterra dois pares de assassinos.
Conseguiram ser enforcados.
E Filipe não ria.
Assim Deus frustrava a ambição daquele vampiro, que contava tirar o filho de Maria Stuart e reinar em seu lugar, com o papa, sobre a Inglaterra.
E o assassino irritava-se ao ver aquele nobre país grande e poderoso.
Não cessava de voltar para ele os olhos pálidos, procurando como poderia esmagá-lo para depois reinar sobre o mundo, exterminar os reformados, sobretudo os ricos, e herdar os bens das vítimas.
Mas não ria.
Trouxeram-lhe camundongos e ratazanas numa caixa de ferro de bordas altas, aberta de um lado.
Colocou o fundo da caixa sobre fogo vivo e teve prazer em ver e ouvir os pobres animais saltarem, gritarem, gemerem e morrerem.
Mas não ria.
Depois, pálido e com as mãos trêmulas, ia aos braços de madame de Éboli derramar seu fogo de luxúria, aceso pela tocha da crueldade.
E não ria.
Madame de Éboli recebia-o por medo, não por amor.
A Lenda de Ulenspiegel — Glossá…