Livro 4 — Capítulo IV A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 153 de 182
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Livro 4 — Capítulo IV

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No dia seguinte, o bailio, os dois escrivães criminais, dois escabinos e um cirurgião-barbeiro foram para os lados de Dudzeele, a fim de verificar se encontrariam, no campo de Servaes Van der Vichte, o corpo de um homem junto ao dique que atravessava o terreno.

Nele dissera a Katheline:

— Hans, teu querido, pede a mão cortada de Hilbert. Esta noite ele gritará como a coruja-do-mato, entrará na choupana e te trará os setecentos florins carolus.

Katheline respondera:

— Eu a cortarei.

E, de fato, tomou uma faca e partiu acompanhada de Nele e seguida pelos oficiais da justiça.

Caminhava depressa e altivamente ao lado de Nele, cujo rosto encantador o ar vivo tornava todo vermelho.

Os oficiais da justiça, velhos e tossidores, seguiam-nas regelados; e pareciam todos sombras negras sobre a planície branca. Nele carregava uma pá.

Quando chegaram ao campo de Servaes Van der Vichte e ao dique, Katheline, avançando até o meio, disse, apontando à direita para o prado:

— Hans, não sabias que eu estava escondida ali, tremendo ao ruído das espadas. E Hilbert gritou: “Este ferro está frio.” Hilbert era feio, Hans é belo. Terás a mão dele. Deixai-me sozinha.

Depois desceu à esquerda, ajoelhou-se na neve e gritou três vezes para o ar, a fim de chamar o espírito.

Nele então lhe deu a pá, sobre a qual Katheline fez três sinais da cruz. Depois traçou sobre o gelo a figura de um caixão e três cruzes invertidas, uma do lado do Oriente, outra do lado do Ocidente e outra do lado do Setentrião, e disse:

— Três é Marte junto de Saturno, e três é descoberta sob Vênus, a estrela clara.

Traçou em seguida um grande círculo ao redor do caixão, dizendo:

— Vai-te, demônio maligno que guardas o corpo.

Depois, caindo de joelhos em oração:

— Diabo amigo, Hilbert — disse ela —, Hans, meu mestre e senhor, ordena-me que venha aqui cortar tua mão e levá-la a ele. Devo-lhe obediência. Não faças contra mim jorrar o fogo da terra, porque perturbo tua nobre sepultura, e perdoa-me por Deus e pelos santos.

Então quebrou o gelo, seguindo a figura do caixão. Chegou à relva úmida, depois à areia, e monsenhor o bailio, seus oficiais, Nele e Katheline viram o corpo de um homem jovem, embranquecido de cal por causa da areia. Vestia um gibão de tecido cinzento e um manto semelhante. Sua espada estava colocada ao lado. Trazia à cintura uma bolsa de malha e um largo punhal cravado sob o coração. Havia sangue no tecido do gibão, e esse sangue escorrera para debaixo das costas. E o homem era jovem.

Katheline cortou-lhe a mão e a pôs em sua bolsa. O bailio deixou-a agir e depois ordenou-lhe que despojasse o cadáver de todos os seus distintivos e vestes. Katheline perguntou se Hans assim o ordenara. O bailio respondeu que agia apenas por ordem dele, e Katheline fez, desde então, tudo o que ele quis.

Quando o cadáver foi despido, viram-no seco como madeira, mas não apodrecido. O bailio e os oficiais da comuna partiram, depois de o mandarem recobrir de areia, e os sargentos levaram as vestes e os objetos.

Ao passarem diante da prisão da comuna, o bailio disse a Katheline que Hans a esperava ali. Ela entrou alegremente.

Nele quis impedi-la, mas Katheline respondia sempre:

— Quero ver Hans, meu senhor.

E Nele chorava à entrada, sabendo que Katheline fora presa como feiticeira por causa das conjurações e figuras que fizera sobre a neve.

E dizia-se em Damme que não haveria perdão algum para ela.

Katheline foi encerrada na cave ocidental da prisão.

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