Livro 1 — Capítulo LV
Livro 1 — Capítulo LV
Vestido com seu traje de peregrino e devidamente absolvido de suas faltas, Ulenspiegel partiu, caminhou sempre adiante e chegou a Bamberg, onde se encontram os melhores legumes do mundo.
Entrou numa hospedaria em que havia uma estalajadeira alegre, que lhe perguntou:
— Jovem mestre, queres comer por teu dinheiro?
— Sim — disse Ulenspiegel. — Mas por qual soma se come aqui?
A estalajadeira respondeu:
— Come-se à mesa dos senhores por seis florins, à mesa dos burgueses por quatro e à mesa da família por dois.
— Quanto mais dinheiro, melhor para mim — respondeu Ulenspiegel.
Foi, portanto, sentar-se à mesa dos senhores.
Depois de ficar bem alimentado e regar o jantar com vinho do Reno, disse à estalajadeira:
— Comadre, comi muito bem por meu dinheiro. Dá-me os seis florins.
A estalajadeira respondeu:
— Estás zombando de mim? Paga tua despesa.
— Bela estalajadeira — respondeu Ulenspiegel —, não tendes rosto de má devedora. Vejo nele, ao contrário, tão grande boa-fé, tanta lealdade e amor ao próximo, que me pagaríeis antes dezoito florins do que me recusar os seis que me deveis. Que belos olhos! É o sol que lança seus raios sobre mim, fazendo crescer a loucura amorosa mais alto que o capim num terreno abandonado.
A estalajadeira respondeu:
— Nada tenho que fazer com tua loucura nem com teu capim. Paga e vai embora.
— Ir embora — disse Ulenspiegel — e deixar de ver-te! Preferiria morrer imediatamente. Doce estalajadeira, não tenho o costume de comer por seis florins, eu, pobre pequeno homem que vaga por montes e vales. Empanturrei-me e logo ficarei com a língua de fora como cão ao sol. Dignai-vos pagar-me. Ganhei bem os seis florins pelo rude trabalho das mandíbulas. Dai-mos, e eu vos acariciarei, beijarei e abraçarei com tamanha gratidão ardente que vinte e sete amantes juntos não bastariam para semelhante tarefa.
— Falas assim por dinheiro — disse ela.
— Queres que eu te devore de graça? — perguntou ele.
— Não — disse ela, defendendo-se.
— Ah! — suspirava ele, perseguindo-a. — Tua pele é como nata, teus cabelos como faisão dourado no espeto, teus lábios como cerejas! Existe iguaria mais deliciosa do que tu?
— Fica-te muito bem, patife perverso — disse ela, sorrindo —, vires ainda reclamar seis florins. Dá-te por feliz por eu te haver alimentado de graça, sem pedir nada.
— Se soubesses — disse Ulenspiegel — quanto espaço ainda existe!
— Parte — disse a estalajadeira — antes que meu marido chegue.
— Serei credor indulgente — respondeu Ulenspiegel. — Dá-me apenas um florim para a sede futura.
— Toma — disse ela —, mau rapaz.
E deu-lhe o florim.
— Mas deixar-me-ás voltar? — perguntou Ulenspiegel.
— Queres ir embora de uma vez? — disse ela.
— Ir embora bem seria caminhar em tua direção, bela; mas ir embora deixando teus belos olhos é partir muito mal. Se quiseres guardar-me, não comerei mais do que por um florim por dia.
— Será necessário um bastão? — perguntou ela.
— Toma o meu — respondeu Ulenspiegel.
Ela ria, mas ele teve de partir.