Livro 2 — Capítulo XIX A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 104 de 182
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Livro 2 — Capítulo XIX

Livro 2 — Capítulo XIX

No mês seguinte, certo doutor Agileus deu dois florins a Ulenspiegel e algumas cartas com as quais deveria ir à casa de Simon Praet, que lhe diria o que fazer.

Na casa de Praet, Ulenspiegel encontrou alimento e abrigo. Seu sono era bom, e boa também sua cara, florida de juventude. Praet, ao contrário, franzino e de aparência lastimosa, parecia sempre encerrado em pensamentos tristes.

Ulenspiegel espantava-se ao ouvir, durante a noite, quando por acaso despertava, pancadas de martelo.

Por mais cedo que se levantasse, Simon Praet já estava de pé antes dele. Quanto mais lastimosa sua aparência, mais tristes eram também seus olhos, brilhantes como os de um homem que se prepara para a morte ou para a batalha.

Praet suspirava muitas vezes, juntando as mãos para rezar, e parecia sempre tomado de indignação. Seus dedos estavam negros e engordurados, assim como os braços e a camisa.

Ulenspiegel resolveu descobrir de onde vinham as pancadas de martelo, os braços negros e a melancolia de Praet.

Certa noite, depois de ir à Blauwe Gans, a taverna da Gansa Azul, na companhia de Simon, que fora contra a vontade, fingiu estar tão embriagado de bebidas e trazer tamanha carraspana na cabeça que precisava levá-la imediatamente ao travesseiro.

Praet, muito triste, conduziu-o para casa.

Ulenspiegel dormia no sótão, perto dos gatos. A cama de Simon ficava embaixo, junto da adega.

Continuando sua fingida bebedeira, Ulenspiegel subiu a escada aos tropeções, simulando que ia cair e agarrando-se à corda. Simon ajudou-o com ternura, como um irmão. Depois de deitá-lo, lamentando sua embriaguez e pedindo a Deus que se dignasse perdoá-la, desceu. Pouco depois, Ulenspiegel ouviu as mesmas pancadas de martelo que tantas vezes o haviam despertado.

Levantando-se sem ruído, desceu descalço os degraus estreitos, de tal maneira que, após setenta e dois, chegou diante de uma porta baixa, por cuja fresta passava um fio de luz.

Simon imprimia folhas avulsas com antigos caracteres do tempo de Laurens Coster, grande propagador da nobre arte da impressão.

— Que fazes aí? — perguntou Ulenspiegel.

Simon respondeu, assustado:

— Se és do diabo, denuncia-me, para que eu morra. Mas, se és de Deus, que tua boca seja a prisão de tua língua.

— Sou de Deus — respondeu Ulenspiegel — e não te quero mal algum. Que fazes aí?

— Imprimo Bíblias — respondeu Simon. — Pois, se durante o dia, para sustentar minha mulher e meus filhos, publico os cruéis e malvados editos de Sua Majestade, durante a noite semeio a verdadeira palavra de Deus e assim reparo o mal que pratiquei de dia.

— És valente — disse Ulenspiegel.

— Tenho fé — respondeu Simon.

De fato, foi daquela santa oficina que saíram as Bíblias em flamengo que se espalharam pelos países de Brabante, Flandres, Holanda, Zelândia, Utrecht, Brabante do Norte, Overijssel e Gueldres, até o dia em que Simon foi condenado a ter a cabeça cortada, terminando assim sua vida por Cristo e pela justiça.

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