Livro 3 — Capítulo XXXIV A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 138 de 182
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Livro 3 — Capítulo XXXIV

Livro 3 — Capítulo XXXIV

No dia seguinte, Ulenspiegel seguiu para Courtrai, margeando o Lys, o rio claro.

Lamme caminhava lastimosamente.

Ulenspiegel disse-lhe:

— Gemes, coração covarde, lamentando a mulher que te fez carregar a coroa chifruda dos enganados.

— Meu filho — disse Lamme —, ela sempre me soube fiel e me amava bastante, embora eu a amasse demais, meu doce Jesus. Certo dia, tendo ido a Bruges, voltou mudada. Desde então, quando eu lhe pedia amor, dizia:

— Preciso viver contigo como amiga, e não de outra maneira.

Então eu, triste de coração:

— Minha querida amada, dizia, fomos casados diante de Deus. Não fiz por ti tudo o que desejavas? Não me vesti muitas vezes com gibão de tecido negro e manto de fustão para ver-te, apesar das ordenanças reais, trajada de seda e brocado? Minha querida, já não me amarás?

— Amo-te — dizia ela — segundo Deus e suas leis, segundo a santa disciplina e a penitência. Contudo, serei tua virtuosa companheira.

— Pouco me importa tua virtude — respondia eu. — É a ti que quero, a ti, minha mulher.

Balançando a cabeça:

— Sei que és bom — dizia ela. — Até hoje foste cozinheiro em casa para poupar-me o trabalho das frigideiras; passaste nossos lençóis, golas e camisas porque os ferros eram pesados demais para mim; lavaste nossas roupas, varreste a casa e a rua diante da porta, para poupar-me toda fadiga. Agora quero trabalhar em teu lugar, mas nada além disso, meu homem.

— Pouco me importa — respondia eu. — Serei, como antes, tua camareira, tua passadeira, tua cozinheira, tua lavadeira, teu escravo submisso. Mas, mulher, não separes estes dois corações e corpos que formavam um só; não rompas o doce laço de amor que nos apertava tão ternamente.

— É preciso — respondia ela.

— Ai! — dizia eu. — Foi em Bruges que tomaste essa cruel resolução?

Ela respondia:

— Jurei diante de Deus e dos santos.

— Quem — gritava eu — te obrigou a jurar que não cumpririas teus deveres de mulher?

— Aquele que tem o espírito de Deus e me inclui entre suas penitentes — dizia ela.

Desde esse momento, deixou de ser minha tanto quanto se fosse a mulher fiel de outro.

Supliquei, atormentei, ameacei, chorei e rezei.

Mas em vão.

Certa noite, voltando de Blanckenberghe, onde fora receber a renda de uma de minhas fazendas, encontrei a casa vazia.

Cansada, sem dúvida, de minhas súplicas, irritada e triste por minha dor, minha mulher fugira.

Onde está agora?

E Lamme sentou-se à margem do Lys, baixando a cabeça e contemplando a água.

— Ah! — dizia ele. — Minha amiga, como éreis gorda, terna e graciosa! Encontrarei algum dia outra franguinha como vós? Caldeirão de amor, nunca mais comerei de ti? Onde estão teus beijos, perfumados como tomilho; tua boca graciosa, onde eu colhia o prazer como a abelha colhe o mel da rosa; teus braços brancos, que me envolviam com carícias? Onde está teu coração palpitante, teu seio redondo e o gentil estremecimento de teu corpo de fada, todo arquejante de amor? Mas onde estão tuas velhas ondas, rio fresco que fazes rolar tão alegremente as novas sob o sol?

A Lenda de Ulenspiegel — Glossá…

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