Livro 4 — Capítulo X A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 159 de 182
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Livro 4 — Capítulo X

Livro 4 — Capítulo X

Certo dia de agosto, pesado e quente, Lamme remoía melancolia. Seu alegre tambor calava-se e dormia, com as baquetas enfiadas na abertura da bolsa. Ulenspiegel e Nele, sorrindo de felicidade amorosa, aqueciam-se ao sol. Os vigias, colocados nas gáveas, assobiavam ou cantavam, procurando com os olhos, sobre o grande mar, alguma presa no horizonte. Muito-Longo os interrogava, e eles respondiam sempre:

— Niets, nada.

Lamme, pálido e abatido, suspirava lastimosamente. Nele perguntou-lhe:

— Por que estás tão pesaroso, Lamme?

Ulenspiegel disse-lhe:

— Estás emagrecendo, meu filho.

— Sim — respondeu Lamme —, estou pesaroso e magro. Meu coração perde a alegria, e minha boa cara, o frescor. Sim, ride de mim, vós que vos reencontrastes através de mil perigos. Zombai do pobre Lamme, que vive como viúvo, embora casado, enquanto esta, disse, apontando para Nele, teve de arrancar seu homem dos beijos da corda, que será a última amante dele. Fez bem, Deus seja bendito, mas que não ria de mim. Sim, não deves rir do pobre Lamme, Nele, minha amiga. Minha mulher ri por dez. Ai! Vós, fêmeas, sois cruéis com as dores alheias. Sim, tenho o coração dolorido, ferido pela espada do abandono, e nada o consolará senão ela.

— Ou algum fricassê — disse Ulenspiegel.

— Sim — respondeu Lamme. — Onde está a carne neste triste navio? Nos navios do rei, eles a comem quatro vezes por semana, quando não há jejum, e peixe três vezes. Quanto aos peixes, Deus me condene se essa estopa, quero dizer, sua carne, faz outra coisa além de me aquecer inutilmente o sangue, meu pobre sangue, que em breve se transformará em água. Eles têm cerveja, queijo, sopa e boa bebida. Sim, têm tudo para o conforto do estômago: biscoito, pão de centeio, cerveja, manteiga, carne defumada; sim, tudo, peixe seco, queijo, grãos de mostarda, sal, favas, ervilhas, mingau, vinagre, óleo, sebo, lenha e carvão. A nós, acabam de proibir que tomemos o gado de quem quer que seja, burguês, abade ou fidalgo. Comemos arenque e bebemos cerveja fraca. Ai! Já não tenho coisa alguma: nem o amor da mulher, nem bom vinho, nem dobbele-bruinbier, nem boa comida. Onde estão aqui nossas alegrias?

— Vou dizer-te onde estão, Lamme — respondeu Ulenspiegel. — Olho por olho, dente por dente. Em Paris, na noite de São Bartolomeu, mataram dez mil corações livres somente na cidade de Paris. O próprio rei atirou contra seu povo. Desperta, Flamengo. Toma o machado sem misericórdia. Ali estão nossas alegrias. Fere o inimigo espanhol e romano onde quer que o encontres.

Deixa de lado tuas comilanças. Levaram as vítimas, mortas ou vivas, até o rio e, em carroças cheias, lançaram-nas à água. Mortas ou vivas, ouves, Lamme? O Sena ficou vermelho durante nove dias, e os corvos desceram sobre a cidade em nuvens. Em La Charité, Rouen, Toulouse, Lyon, Bordeaux, Bourges e Meaux, o massacre foi horrível.

Vês as matilhas de cães empanturrados deitadas junto aos cadáveres? Seus dentes estão cansados. O voo dos corvos é pesado, tão carregados estão os estômagos com a carne das vítimas. Ouves, Lamme, a voz das almas clamando vingança e piedade? Desperta, Flamengo.

Falas de tua mulher. Não a creio infiel, mas enlouquecida, e ainda te ama, pobre amigo. Não estava entre aquelas damas da corte que, na própria noite do massacre, despiram com suas mãos delicadas os cadáveres para verificar o tamanho de sua virilidade carnal. E riam, aquelas damas grandes na devassidão.

Alegra-te, meu filho, apesar do peixe e da cerveja fraca. Se o gosto que o arenque deixa na boca é insípido, mais insípido ainda é o cheiro dessa infâmia. Os que mataram celebram banquetes e, com as mãos mal lavadas, cortam os gansos gordos para oferecer às gentis donzelas de Paris as asas, as pernas e o traseiro. Tocaram em outra carne há pouco, carne fria.

— Não me queixarei mais, meu filho — disse Lamme, levantando-se. — Para os corações livres, o arenque é papa-figos, e a cerveja fraca, malvasia.

Ulenspiegel disse:

Viva o Mendigo! Não choremos, irmãos.

Nas ruínas e no sangue

Floresce a rosa da liberdade.

Se Deus está conosco, quem estará contra nós?

Quando a hiena triunfa,

Chega a vez do leão.

Com um golpe de pata, ele a lança ao chão, esventrada.

Olho por olho, dente por dente. Viva o Mendigo!

E os Mendigos, nos navios, cantavam:

O duque nos reserva o mesmo destino.

Olho por olho, dente por dente,

Ferida por ferida. Viva o Mendigo!

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