Livro 1 — Capítulo LIII A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 53 de 182
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Livro 1 — Capítulo LIII

Livro 1 — Capítulo LIII

Depois de caminhar por longo tempo, Ulenspiegel ficou com os pés ensanguentados e encontrou, no bispado de Mainz, uma carroça de peregrinos que o levou até Roma.

Quando entrou na cidade e desceu da carroça, avistou à porta de uma hospedaria uma bela comadre, que sorriu ao perceber que ele a contemplava.

Tirando bom presságio daquele humor agradável:

— Estalajadeira — disse ele —, queres dar abrigo ao peregrino peregrinante? Cheguei ao termo da viagem e estou prestes a dar à luz a remissão de meus pecados.

— Damos abrigo a todos os que nos pagam.

— Tenho cem ducados na bolsa — respondeu Ulenspiegel, que só possuía um —, e quero gastar contigo o primeiro, bebendo uma garrafa de velho vinho romano.

— O vinho não custa caro nestes lugares santos — respondeu ela. — Entra e bebe por um soldo.

Beberam juntos por tanto tempo e esvaziaram, entre conversas miúdas, tantos frascos, que a estalajadeira teve de mandar a criada servir os fregueses em seu lugar, enquanto ela e Ulenspiegel se retiravam para uma sala dos fundos, feita de mármore e fria como o inverno.

Apoiando a cabeça no ombro dele, perguntou quem era.

Ulenspiegel respondeu:

— Sou senhor de Geeland, conde de Gavergeëten, barão de Tuchtendeel, e possuo em Damme, que é meu lugar de nascimento, vinte e cinco bonários de luar.

— Que terra é essa? — perguntou a estalajadeira, bebendo da caneca de Ulenspiegel.

— É uma terra — disse ele — onde se semeiam ilusões, esperanças insensatas e promessas ao vento. Mas tu não nasceste ao luar, doce estalajadeira de pele cor de âmbar e olhos brilhantes como pérolas. É cor de sol o ouro brunido destes cabelos. Foi Vênus, sem ciúme, quem te fez os ombros carnudos, os seios saltitantes, os braços redondos e as mãos encantadoras. Cearemos juntos esta noite?

— Belo peregrino de Flandres — disse ela —, por que vieste aqui?

— Para falar com o papa — respondeu Ulenspiegel.

— Ai! — disse ela, unindo as mãos. — Falar com o papa! Eu, que sou deste país, nunca consegui fazê-lo.

— Eu o farei — disse Ulenspiegel.

— Mas sabes — perguntou ela — onde ele vai, como é, quais são seus costumes e maneiras de viver?

— Disseram-me no caminho — respondeu Ulenspiegel — que se chama Júlio III, que é devasso, alegre e dissoluto, bom conversador e hábil nas respostas. Disseram-me também que tomou extraordinária afeição por um homenzinho mendigo, negro, sujo e feroz, que pedia esmolas com um macaco, e que, ao subir ao trono pontifício, fez dele cardeal do Monte, ficando enfermo quando passa um dia sem vê-lo.

— Bebe — disse ela — e não fales tão alto.

— Dizem também — continuou Ulenspiegel — que pragueja como soldado: Al dispetto di Dio, potta di Dio! Certa vez não encontrou para a ceia um pavão frio que mandara guardar e disse: “Eu, vigário de Deus, posso muito bem praguejar por causa de um pavão, já que meu senhor se irritou por causa de uma maçã!” Vês, bela, que conheço o papa e sei quem ele é.

— Ai! — disse ela. — Não fales disso com outras pessoas. Ainda assim, não o verás.

— Falarei com ele — disse Ulenspiegel.

— Se o fizeres, dou-te cem florins.

— Já os ganhei — disse Ulenspiegel.

No dia seguinte, embora tivesse as pernas cansadas, percorreu a cidade e soube que o papa celebraria missa naquele dia em São João de Latrão.

Ulenspiegel foi até lá e colocou-se tão perto e tão visível ao papa quanto pôde. E, cada vez que o papa elevava o cálice ou a hóstia, Ulenspiegel virava as costas para o altar.

Perto do papa estava um cardeal oficiante, moreno de rosto, malicioso e roliço, que trazia um macaco sobre o ombro e dava o sacramento ao povo com muitos gestos obscenos.

Ele chamou a atenção do papa para o comportamento de Ulenspiegel. Assim que terminou a missa, o pontífice enviou quatro soldados famosos, como se conhecem naqueles países guerreiros, para prender o peregrino.

— Qual é tua fé? — perguntou-lhe o papa.

— Santíssimo Padre — respondeu Ulenspiegel —, tenho a mesma fé de minha estalajadeira.

O papa mandou chamar a comadre.

— Em que acreditas? — perguntou-lhe.

— Naquilo em que acredita Vossa Santidade — respondeu ela.

— E eu igualmente — disse Ulenspiegel.

O papa perguntou por que ele virara as costas ao Santíssimo Sacramento.

— Sentia-me indigno de olhá-lo de frente — respondeu Ulenspiegel.

— És peregrino — disse-lhe o papa.

— Sim — respondeu ele —, e venho de Flandres pedir a remissão de meus pecados.

O papa o abençoou, e Ulenspiegel partiu com a estalajadeira, que lhe contou cem florins.

Assim provido, deixou Roma para regressar à terra de Flandres.

Mas teve de pagar sete ducados por seu perdão escrito em pergaminho.

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