Livro 3 — Capítulo XIX
Livro 3 — Capítulo XIX
Soprava um vento cortante. O sol, claro como a juventude pela manhã, tornou-se grisalho como um velho.
Caiu uma chuva de granizo.
Quando a chuva cessou, Ulenspiegel sacudiu-se e disse:
— O céu, que bebe tantos vapores, precisa aliviar-se de vez em quando.
Outra chuva, mais carregada de granizo que a primeira, caiu sobre os dois companheiros.
Lamme gemia:
— Já estávamos bem lavados; era preciso agora nos enxaguar?
O sol reapareceu, e eles seguiram alegres, montados nos asnos.
Caiu então uma chuva de granizo tão violenta e mortífera que retalhava as ramagens secas das árvores, como se um monte de facas as cortasse em pedaços.
Lamme dizia:
— Oh, um teto! Minha pobre mulher! Onde estais, bom fogo, doces beijos e sopas gordurosas?
E chorava, o gordo.
Mas Ulenspiegel disse:
— Nós nos lamentamos, contudo não somos nós mesmos a causa de nossos males? Chove sobre nossos ombros, mas esta chuva de dezembro fará os trevos de maio. E as vacas mugirão de contentamento. Estamos sem abrigo, mas por que não nos casamos? Quero dizer, eu com a pequena Nele, tão bela e tão boa, que agora me faria um bom ensopado de carne bovina com favas. Temos sede apesar da água que cai; por que não nos tornamos trabalhadores constantes num único ofício? Aqueles que são recebidos como mestres têm nas adegas tonéis cheios de bruinbier.
As cinzas de Claes bateram sobre o seu coração; o céu clareou, o sol brilhou, e Ulenspiegel disse:
— Senhor sol, graças vos sejam dadas, aqueceis nossos rins. Cinzas de Claes, aqueceis nosso coração e nos dizeis que são benditos aqueles que vagueiam pela libertação da terra dos pais.
— Tenho fome — disse Lamme.