Livro 1 — Capítulo L
Livro 1 — Capítulo L
Um homem de Damme, não podendo pagar o carvão comprado de Claes, deu-lhe seu melhor móvel, que era uma besta com doze virotes bem afiados para servirem de projéteis.
Nas horas em que o trabalho parava, Claes praticava com a besta. Mais de uma lebre foi morta por ele e transformada em fricassê por ter amado demais as couves.
Claes comia então com grande apetite, e Soetkin, olhando para a estrada deserta, dizia:
— Thyl, meu filho, não sentes o perfume dos molhos? Deve estar com fome agora.
E, pensativa, teria desejado guardar-lhe uma parte do banquete.
— Se está com fome — dizia Claes —, é culpa dele. Que volte, e comerá como nós.
Claes criava pombos. Gostava também de ouvir cantar e chilrear ao redor de si toutinegras, pintassilgos, pardais e outros pássaros cantores ou tagarelas.
Assim, gostava de atirar nos milhafres e nos gaviões reais, devoradores do povo.
Ora, certa vez, quando media carvão no pátio, Soetkin mostrou-lhe uma grande ave planando no ar acima do pombal.
Claes tomou a besta e disse:
— Que o diabo salve Sua Gavialteza!
Armou a besta e ficou no pátio seguindo todos os movimentos da ave, para não errar.
A claridade do céu estava entre o dia e a noite. Claes só conseguia distinguir um
Soltou o virote e viu cair no pátio uma cegonha.
Claes ficou muito aflito, mas Soetkin ficou ainda mais e exclamou:
— Perverso, mataste o pássaro de Deus!
Depois tomou a cegonha, viu que estava ferida apenas na asa, foi buscar bálsamo e, enquanto tratava a ferida, dizia:
— Cegonha, minha amiga, não é prudente da tua parte, sendo amada, planar no céu como o gavião odiado. Assim as flechas do povo vão ao destino errado. Dói-te a pobre asa, cegonha, que te deixas tratar com tanta paciência, sabendo que nossas mãos são amigas?
Quando a cegonha sarou, recebeu tudo quanto desejava comer, mas preferia o peixe que Claes ia pescar para ela no canal.
E cada vez que o pássaro de Deus o via chegar, abria o grande bico.
Seguia Claes como cão, mas permanecia com maior prazer na cozinha, aquecendo o ventre junto ao fogo e batendo com o bico na barriga de Soetkin, que preparava o jantar, como se dissesse:
— Não há nada para mim?
E era divertido ver aquela grave mensageira da felicidade vagar pela choupana sobre suas longas pernas.