Livro 1 — Capítulo LXVII A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 67 de 182
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Livro 1 — Capítulo LXVII

Livro 1 — Capítulo LXVII

Naquele domingo realizou-se em Bruges a procissão do Santo Sangue.

Claes disse à esposa e a Nele que fossem vê-la e que talvez encontrassem Ulenspiegel na cidade. Quanto a ele, ficaria guardando a choupana enquanto esperava o regresso do peregrino.

As duas mulheres partiram juntas.

Claes, permanecendo em Damme, sentou-se diante da porta e achou a cidade muito deserta.

Nada ouvia além do som cristalino de algum sino de aldeia, enquanto de Bruges lhe chegavam, em rajadas, a música dos carrilhões e grande estrondo de falconetes e peças de fogos de artifício disparadas em honra do Santo Sangue.

Claes, pensativo, procurava Ulenspiegel pelos caminhos e nada via além do céu claro e inteiramente azul, alguns cães deitados com a língua de fora ao sol, pardais livres banhando-se e chilreando na poeira, um gato que os espreitava e a luz entrando como amiga em todas as casas, fazendo brilhar sobre os aparadores os caldeirões de cobre e as canecas de estanho.

Mas Claes permanecia triste em meio àquela alegria.

Procurando o filho, tentava vê-lo atrás da névoa cinzenta dos prados, ouvi-lo no alegre murmúrio das folhas e no concerto jubiloso dos pássaros nas árvores.

De repente, viu na estrada de Maldeghem um homem alto e percebeu que não era Ulenspiegel.

Viu-o deter-se à beira de um campo de cenouras e comer avidamente aqueles legumes.

— Eis um homem que sente muita fome — disse Claes.

Depois de perdê-lo de vista por um instante, viu-o reaparecer na esquina da rua da Garça e reconheceu o mensageiro de Josse, que lhe trouxera os setecentos carolus de ouro.

Foi encontrá-lo no caminho e disse:

— Entra em minha casa.

O homem respondeu:

— Benditos sejam os que tratam com doçura o viajante errante.

No apoio exterior da janela da choupana havia migalhas de pão que Soetkin reservava aos pássaros dos arredores. No inverno, vinham ali procurar alimento.

O homem tomou algumas migalhas e comeu-as.

— Tens fome e sede — disse Claes.

O homem respondeu:

— Há oito dias fui despojado por ladrões e alimento-me apenas de cenouras nos campos e raízes nos bosques.

— Então — disse Claes — chegou a hora de banquetear.

Abrindo a arca, continuou:

— Eis uma tigela cheia de ervilhas, ovos, morcelas, presuntos, salame de Gante e waterzoey, cozido de peixe. Lá embaixo, na adega, dorme vinho de Lovaina preparado à maneira dos vinhos da Borgonha, vermelho e claro como rubi. Só espera o despertar dos copos. Vamos, ponhamos um feixe no fogo. Ouves as morcelas cantando sobre a grelha? É canção de bom alimento.

Enquanto as virava e revirava, Claes perguntou ao homem:

— Não viste meu filho Ulenspiegel?

— Não — respondeu ele.

— Trazes notícias de Josse, meu irmão? — perguntou Claes, colocando sobre a mesa as morcelas assadas, uma omelete com gordo presunto, queijo, grandes canecas e o vinho de Lovaina, tinto e claro, brilhando nos frascos.

O homem respondeu:

— Teu irmão Josse morreu na roda, em Sippenaken, perto de Aachen. Isso porque, sendo herege, tomou armas contra o imperador.

Claes ficou como enlouquecido e disse, tremendo por inteiro, pois sua cólera era grande:

— Carrascos perversos! Josse! Meu pobre irmão!

O homem disse então, sem doçura:

— Nossas alegrias e dores não pertencem a este mundo.

E começou a comer.

Depois disse:

— Assisti teu irmão na prisão, fingindo ser um camponês de Nieswieler, seu parente. Venho aqui porque ele me disse: “Se não morreres pela fé como eu, vai procurar meu irmão Claes. Ordena-lhe que viva na paz do Senhor, pratique obras de misericórdia e eduque secretamente o filho segundo a lei de Cristo. O dinheiro que lhe dei foi tomado do pobre povo ignorante. Que ele o use para educar Thyl na ciência de Deus e da Palavra.”

Tendo dito isso, o mensageiro deu a Claes o beijo da paz.

E Claes, lamentando-se, dizia:

— Morto na roda, meu pobre irmão!

E não conseguia recuperar-se de sua grande dor.

Contudo, vendo que o homem sentia sede e estendia o copo, serviu-lhe vinho, mas comeu e bebeu sem prazer.

Soetkin e Nele permaneceram ausentes durante sete dias. Durante esse tempo, o mensageiro de Josse morou sob o teto de Claes.

Todas as noites ouviam Katheline gritar na choupana:

— Fogo! Fogo! Abri um buraco! A alma quer sair!

E Claes ia até ela, acalmava-a com palavras doces e depois regressava para casa.

Ao fim dos sete dias, o homem partiu e só quis receber de Claes dois carolus para alimentar-se e hospedar-se pelo caminho.

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